Prancheta
Seleção brasileira com Ancelotti: sistema, problemas no meio-campo é o que falta para a Copa
## O treinador estrangeiro e a herança do caos
Carlo Ancelotti assumiu a seleção brasileira em maio de 2025 como o primeiro técnico estrangeiro da história do cargo. Ele chegou após o ciclo de Dorival Júnior, que deixou a seleção com a campanha mais inconsistente das últimas eliminatórias: 6 formações diferentes em 18 jogos, sem sistema claro e com o meio-campo como zona de indefinição permanente.
O que Ancelotti trouxe foi exatamente o que faltava: clareza de função. O italiano é o treinador mais experiente na combinação de talentos individuais com estrutura coletiva. No Real Madrid, ele transformou jogadores de perfil similar ao da seleção brasileira (atletas ofensivos com dificuldade de função defensiva) em um bloco funcional.
O Brasil está no Grupo C da Copa 2026, com jogos em Nova York, Filadélfia e Miami. Os adversários na fase de grupos são Marrocos, Haiti e Escócia. A fase de grupos é administrável; o problema começa nas oitavas.
## O sistema: 4-3-3 com variações
Ancelotti opera com 4-3-3, o mesmo sistema do Real Madrid. Vinícius Jr. pela esquerda, Rodrygo pela direita e Endrick como centroavante são os três da frente. O meio-campo tem Bruno Guimarães como pivô e dois meias de criação nas posições de interior.
O dado que mais preocupa é o meio-campo: nos últimos 8 amistosos de preparação para a Copa, o Brasil concedeu uma média de 2,1 recuperações de bola na zona de criação por jogo para os adversários. É um número alto para uma equipe que quer dominar posse.
O problema está na função de cobertura dos meias interiores. Ancelotti usa Paquetá e Gomes como os dois meias ao lado de Bruno Guimarães. Paquetá tem perfil ofensivo e baixa taxa de recuperações (3,2 por 90), abaixo da média de qualquer interior de time de título. Quando o Brasil perde a bola, o pivô Bruno Guimarães fica isolado na cobertura do centro.
## Vinícius Jr.: o desequilíbrio que o sistema precisa sustentar
Vinícius Júnior é o jogador mais decisivo do Brasil. Com 25 anos na Copa de 2026, está no pico da carreira. Os dados de 2025 pelo Real Madrid são os melhores da carreira: 0,58 xG por 90 minutos, 4,8 dribles convertidos por 90 e 3,1 criações de chances diretas.
O sistema de Ancelotti na seleção é construído ao redor de Vinícius da mesma forma que no Real Madrid: lateral esquerdo se posiciona alto para dar largura, Vinícius vai para dentro, o meia interior aparece no espaço gerado pela saída do lateral.
O que não está resolvido é a cobertura quando Vinícius perde a bola em posição avançada. No Real Madrid, Camavinga cobre esse espaço sistematicamente. Na seleção, o lateral esquerdo fica exposto se a cobertura não sair do interior.
## Endrick: o centroavante de 20 anos
Endrick tem 20 anos na Copa de 2026 e é o centroavante titular com Ancelotti. O dado que mais chama atenção do jovem nos amistosos de preparação é a taxa de finalização: 4,1 tentativas por 90 minutos, o mais alto entre atacantes do Brasil nos últimos 12 meses.
O problema é a eficiência: 0,31 xG por finalização, número médio para a posição. Endrick chuta muito, mas a qualidade das posições ainda pode melhorar. Dos 4,1 chutes por 90, 1,8 são de fora da área em situações de baixa probabilidade.
Ancelotti está trabalhando o posicionamento de Endrick para fazer mais do que finalizar: o centroavante precisa segurar a bola nas costas da defesa e servir os meias chegando. Nos últimos amistosos, o dado de bolas retidas e distribuídas de Endrick melhorou de 3,1 para 4,8 por 90 minutos.
## O meio-campo: o problema que persiste
O principal desafio tático da seleção não é o ataque. É o meio-campo. Sem um volante especializado em cobertura que não seja Bruno Guimarães, o Brasil depende de um único jogador para controlar o centro quando Paquetá e o outro interior estão em posição ofensiva.
O dado mais revelante dos amistosos: quando Bruno Guimarães é pressionado individualmente por dois adversários, o Brasil tem 68% de turnover (perda da posse) na transição. É o número mais alto entre as seleções favoritas ao título.
A solução possível é usar o próprio Gomes como segundo volante de contenção ao lado de Bruno Guimarães, colocando Paquetá mais adiantado como meia criativo. A configuração 4-1-4-1 ou 4-2-3-1 daria mais cobertura ao centro, mas Ancelotti relutou em mudar porque reduz a mobilidade ofensiva dos meias.
## O Grupo C e a projeção
Marrocos é o adversário mais difícil do grupo. O time africano usa 4-3-3 com pressing alto e tem a melhor defesa da Copa Africana em 2025. Nos dados de duelos internacionais recentes, Marrocos concedeu apenas 0,7 xG por jogo.
Haiti e Escócia são acessíveis na fase de grupos. O Brasil precisa de apenas 6 pontos para passar.
O problema real começa nas oitavas, onde o Brasil pode cruzar com um dos times europeus fortes. Se o meio-campo não estiver resolvido, uma seleção com dois volantes de contenção no centro vai neutralizar o 4-3-3 de Ancelotti antes que Vinícius ou Rodrygo entrem em ação.
## Diagnóstico
O Brasil de Ancelotti tem o ataque mais talentoso da Copa. O meio-campo ainda não está resolvido. A questão não é se o Brasil vai passar da fase de grupos: é se terá estrutura para superar uma seleção organizada nas oitavas ou quartas de final.