São Paulo de Roger Machado: o 4-3-3 que tenta eliminar o cruzamento como recurso
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Leitura Tática 2026-04-06 4 min de leitura

São Paulo de Roger Machado: o 4-3-3 que tenta eliminar o cruzamento como recurso

Rafael Teixeira
Jornalista Esportivo
## A declaração que define o sistema Após um empate do São Paulo nos primeiros jogos do Brasileirão 2026, Roger Machado foi direto na análise pós-jogo: o excesso de cruzamentos para a área adversária não faz parte do modelo de jogo que pretende implementar no Morumbi. A declaração é incomum no futebol brasileiro, onde treinadores raramente criticam publicamente o padrão de jogo mesmo quando ele não funciona. O São Paulo tem 3 vitórias, 2 derrotas e 1 empate nas primeiras rodadas. Aproveitamento de 56%, abaixo do esperado para o elenco disponível, mas dentro de uma curva de adaptação ao sistema novo. ## O que Roger Machado quer implementar O modelo de Roger Machado no São Paulo é construído sobre dois princípios opostos ao estilo anterior do clube: menos cruzamentos e mais conexões pelo centro. O 4-3-3 que o treinador usa posiciona Arthur mais aberto pelo lado direito, Luciano recuado como camisa 10 entre as linhas e Ferreirinha pela esquerda com maior liberdade de inversão. A ideia central é que o centroavante Calleri receba a bola já virado para o gol, não de costas para defender. Para isso funcionar, os passes de criação precisam vir de dentro para fora, não de fora para dentro. O cruzamento de lateral ou extremo na linha é o oposto do que o sistema exige: coloca a bola no lugar errado e na situação errada para um centroavante como Calleri. Calleri tem 0,41 xG por 90 minutos quando recebe passes frontais dentro da área, mas apenas 0,18 quando recebe cruzamentos de fora para dentro. A diferença é 128%. O sistema de Roger busca explorar o cenário mais eficiente para o argentino. ## O meio-campo: Bobadilla, Alisson e a saída de bola O triângulo de meio-campo do São Paulo tem Alisson como o pivô de recuperação, Bobadilla como organizador e Pablo Maia (quando disponível) como o meia de ligação. A função de Bobadilla é criar a conexão entre o bloco defensivo e o ataque: ele recebe de Alisson, distribui para Luciano ou para os extremos e determina se o time acelera ou mantém posse. O dado de Bobadilla que mais importa para o sistema é o de passes progressivos: 7,2 por 90 minutos nas últimas 6 rodadas. Quando ele está em ritmo, o São Paulo tem uma linha de progressão clara. Quando ele está marcado por dois jogadores, o time recorre ao cruzamento, que é exatamente o que Roger Machado quer eliminar. Na vitória por 4 a 1 sobre o Cruzeiro, o São Paulo registrou apenas 9 cruzamentos no jogo inteiro, contra a média de 18 nas rodadas anteriores. O dado confirma que o sistema está sendo absorvido, mas ainda não de forma consistente. ## O pressing: segundo mais alto da liga O São Paulo tem 18,4 recuperações no campo ofensivo por jogo, segundo da liga atrás apenas do Palmeiras. O dado indica que o pressing alto de Roger Machado está funcionando como mecanismo de recuperação de bola, mesmo que o sistema ofensivo ainda esteja em ajuste. O pressing do São Paulo usa os três atacantes como primeira linha de pressão. Quando um adversário fica com a bola nos 40 metros finais, Calleri, Ferreirinha e Arthur avançam em bloco para cortar os passes de saída. A recuperação de bola no campo ofensivo é o início do ataque mais eficiente para o sistema: a bola está perto do gol adversário, o time está em posição avançada e o adversário está desorganizado. O risco é quando o pressing é escapado. Se o adversário consegue passar pela pressão com um passe longo ou uma condução individual, o São Paulo fica com os três atacantes fora de posição e a defesa exposta. Das 2 derrotas nas primeiras rodadas, os 4 gols sofridos vieram de transições após pressing escapado. ## O que ainda não resolve O lateral esquerdo é o ponto de desequilíbrio mais óbvio do sistema. Reinaldo, titular, tem o maior número de cruzamentos por jogo do São Paulo (4,8), o que vai de encontro ao modelo que Roger Machado quer implementar. O treinador criticou os cruzamentos mas não trocou o lateral, o que indica que a solução está na instrução, não na escalação. Sem Lucas Moura, que continua em recuperação de lesão, o São Paulo não tem um extremo direito com o perfil de inversão e chegada ao espaço que o sistema exige. Arthur tem qualidade técnica mas ainda não encontrou consistência de posicionamento no modelo novo. ## Diagnóstico O São Paulo de Roger Machado está em processo de implementação de um sistema que contradiz os hábitos táticos recentes do clube. Menos cruzamentos, mais conexões centrais, pressing alto como mecanismo de criação. Os resultados das últimas rodadas indicam que o modelo está funcionando quando bem executado. O problema é que ainda não é consistente, e o Brasileirão não espera por adaptação.
Rafael Teixeira Jornalista Esportivo

Rafael Teixeira tem 34 anos e nasceu em Goiânia. Formado em Educação Física pela UFG, trabalhou como analista de performance no Goiás EC entre 2018 e 2022, onde participou do acesso à Série A em 2018.... Ler perfil completo