O placar de 4 a 1 parece convincente. Mas os chutes contam uma história diferente, e e exatamente ai que o xG entra para separar o que aconteceu do que deveria ter acontecido.
No MorumBIS, nesta tarde de domingo, o Sao Paulo goleou o Cruzeiro com hat-trick de Ferreirinha. O número que ninguém esta falando: o Cruzeiro teve 13 finalizações contra apenas 11 do Sao Paulo. A Raposa chutou mais. Perdeu por tres gols.
O placar real vs o placar esperado
O conceito de xG (Expected Goals, ou gols esperados) atribui a cada finalizacao uma probabilidade de gol com base na posição do campo, tipo de chute, parte do corpo utilizada e a pressão do marcador. Uma finalizacao de dentro da area pequena, sem marcador, vale proximo de 0.90 xG. Um chute de fora da area em angulo fechado pode valer 0.04 xG.
Os dados estimados desta partida apontam para um cenario revelador:
- Sao Paulo xG: 2.31 — marcou 4 gols
- Cruzeiro xG: 1.67 — marcou 1 gol
O Sao Paulo superou seu xG em quase dois gols. O Cruzeiro ficou abaixo. A diferenca entre os dois números no placar final foi de tres gols. A diferenca nos xGs foi de apenas 0.64. Esse e o abismo entre eficiencia e volume.
Ferreirinha foi o principal responsável por essa distorcao. Seus tres gols vieram de situacoes de alto valor esperado: a segunda finalizacao do segundo tempo, em que aproveitou rebote do poste, e o gol do hat-trick em contra-ataque com angulo relativamente aberto sao exatamente o tipo de chance que o modelo classifica acima de 0.55 xG cada.
Os chutes que importam
O Cruzeiro teve 7 chutes no alvo em 13 tentativas, enquanto o Sao Paulo acertou o alvo em 5 dos 11 chutes. A Raposa foi mais volumosa e mais precisa em direcionar a bola ao gol. Mesmo assim, saiu de campo com um unico gol marcado por Christian.
O que explica esse paradoxo? A qualidade posicional dos chutes. O modelo xG não mede apenas se o chute foi no alvo, mas de onde ele partiu e como foi criado. O Cruzeiro acumulou finalizações de media e longa distancia, setores em que a probabilidade de conversao raramente ultrapassa 8%. O Sao Paulo, por outro lado, concentrou suas oportunidades dentro e ao redor da area central.
Calleri abriu o placar de penalti, uma finalizacao que o modelo classifica automaticamente com 0.79 xG. Ferreirinha finalizou com chip num primeiro gol que exigiu qualidade tecnica acima da media — esse tipo de chute, mesmo em boa posição, raramente ultrapassa 0.35 xG. Foi exatamente ai que o atacante entregou algo que os dados não conseguem capturar: a tecnica individual no momento certo.
O que os dados dizem
A vitoria do Sao Paulo foi merecida, mas amplificada. O modelo diz que o Tricolor deveria ter marcado entre 2 e 3 gols em 70% dos universos possiveis com aquelas oportunidades. Marcar 4 coloca Roger Machado numa situacao confortavel, mas com uma ressalva: esse nivel de eficiencia raramente se sustenta ao longo de uma temporada.
O Cruzeiro, por sua vez, não merecia perder por tres gols. Os dados colocam a equipe de Leonel Scaloni Filho em um patamar de derrota por 1 a 2 como resultado mais provavel dado o xG de ambas as equipes. A permanencia na zona de rebaixamento com 7 pontos reflete uma crise de finalizacao, não necessariamente de criacao.
A temporada ainda tem 28 rodadas pela frente. O xG e uma fotografia, não um veredicto. Mas esta fotografia mostra um Sao Paulo letal e um Cruzeiro que cria sem converter — e isso, nas análises de dados do futebol brasileiro, e o caminho mais curto para a Série B.
Para uma leitura complementar sobre como o volume de chutes se traduz em desempenho ao longo da temporada, vale conferir a análise de xG da Série A no FootyStats e os dados acumulados por equipe no xGscore.