SAF: tres anos depois, o modelo não é o problema
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Fora da Caixa 2026-04-07 3 min de leitura

SAF: tres anos depois, o modelo não é o problema

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O modelo SAF, Sociedade Anonima do Futebol, foi vendido ao Brasil como a modernizacao que o futebol precisava. Capital privado, gestao profissional, separacao entre o clube como associacao e o clube como empresa.

Tres anos depois de varias SAFs em funcionamento, o balanco e mais complexo do que os entusiastas prometeram e mais positivo do que os criticos temiam.

O que funcionou no modelo SAF

O Botafogo. John Textor comprou o clube em situacao de colapso financeiro e construiu um projeto que ganhou Brasileirão e Libertadores em 2024. O investimento foi real, a gestao foi presente, o projeto teve coerencia de longo prazo.

O Cruzeiro. Pedro Lourenco tirou o clube da Serie B, reorganizou as financas, contratou um nivel de jogador que o clube não podia pagar antes. O desempenho esportivo ainda oscila, mas a situacao financeira e dramaticamente melhor do que o anterior.

O que esses casos tem em comum: investidores com interesse genuino no futebol, presenca na gestao, projeto claro de desenvolvimento do clube como negocio sustentavel.

O que não funcionou

O Vasco e o caso mais emblematico de falha. A 777 Partners comprou 70% da SAF com promessas de investimento que não foram cumpridas. O resultado: disputas judiciais, incerteza administrativa, time no fundo da tabela do Brasileirão em 2026.

O problema não foi o modelo, foi o investidor. A SAF e um instrumento legal que pode ser usado bem ou mal. A 777 Partners tinha investimentos diversificados em varios setores e o futebol era parte pequena de uma operacao maior. Quando a operacao maior entrou em dificuldade, o futebol sofreu junto.

O que o Brasileirão de 2026 revela sobre o modelo

Clubes com SAF bem gerida estao entre os mais competitivos, o Botafogo, o Cruzeiro em ascensao. Clubes com SAF mal gerida estao com problemas que antes não teriam.

Isso sugere que o modelo amplifica: bom investidor com SAF produz clube melhor mais rapidamente. Mau investidor com SAF produz crise mais profunda do que o modelo tradicional de associacao teria permitido.

O que o Brasil precisa aprender com tres anos de SAF

Criterio de investidor. A legislacao da SAF não tem mecanismos suficientes de due diligence sobre quem pode comprar clube. Qualquer fundo com capital disponivel pode fazer uma oferta. O torcedor, que e o ativo real que o clube possui, não tem protecao adequada contra investidor que não cumpre o que prometeu.

Transparencia financeira. SAF implica empresa, empresa tem obrigacao de publicar balancetes, de prestar contas a acionistas. O nivel de transparencia financeira dos clubes SAF ainda e inconsistente.

E paciencia na avaliacao. Tres anos e pouco para julgar definitivamente um modelo. O que os tres anos mostram e que o modelo funciona quando o investidor funciona. O que precisa ser construido e o mecanismo de garantir que o investidor que chega vai funcionar antes de deixa-lo entrar.

O Botafogo mostrou que e possivel. O Vasco mostrou que não e garantido. A verdade sobre a SAF esta entre os dois casos.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo