Rodrygo está fora da Copa. E o Brasil não tem quem o substitua
CBF / Arquivo Globo
Fora da Caixa 2026-04-06 4 min de leitura

Rodrygo está fora da Copa. E o Brasil não tem quem o substitua

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Rodrygo Goes rompeu o ligamento cruzado anterior e o menisco lateral do joelho direito contra o Getafe, em março. A cirurgia foi bem-sucedida. A recuperação leva entre 10 e 12 meses. A Copa do Mundo começa em junho.

A conta não fecha. Rodrygo está fora.

E o Brasil, que já chegava à Copa com dúvidas sérias no ataque, ficou com uma dúvida a mais num setor que não tinha sobra.

O que Rodrygo representava que ninguém substitui diretamente

Rodrygo não era o melhor jogador do ataque brasileiro. Esse posto é de Vini Jr., sem discussão. Mas Rodrygo era o jogador que fazia o sistema funcionar para todos os outros.

É um perigo permanente sem bola. Abre espaço. Força zagueiros a decidirem. Chega na área sem ser o centro das atenções. Pelo Real Madrid, soma gols importantes sem ser o protagonista obrigatório de cada lance. É o tipo de peça que técnico bom reconhece como insubstituível e torcida subestima porque não faz barulho.

Para Vini Jr. funcionar na seleção, ele precisa de alguém que atraia marcação. Rodrygo fazia isso. Com quem Ancelotti vai substituir essa função?

As opções que existem e o que elas não são

Raphinha está confirmado. É um jogador diferente: mais técnico, melhor com a bola nos pés, melhor na construção. Mas não ocupa o mesmo espaço que Rodrygo ocupa. Raphinha não entra em profundidade com a mesma naturalidade. Não chega na segunda trave com o mesmo timing.

Estêvão é jovem, talentoso, mas ainda está em processo de formação. Deu passos importantes no Chelsea, mas pedir que ele substitua Rodrygo numa Copa do Mundo com 18 anos é muita responsabilidade.

Gabriel Martinelli tem características parecidas com Rodrygo em termos de corrida e chegada na área, mas jogou pouco na seleção e não tem o mesmo volume de participações que tornaria Ancelotti confortável em colocá-lo como titular.

Luiz Henrique é uma opção interessante, mais pelo drible individual do que pela movimentação coletiva que Rodrygo oferecia.

Nenhum deles é Rodrygo para esse sistema específico. E "nenhum deles é X" não é crítica. É análise. Rodrygo era uma peça construída em anos de trabalho no Real Madrid com um técnico que sabe exatamente como usá-lo. Replicar isso em semanas de preparação para Copa não existe.

O padrão de lesões que o Brasil se recusa a estudar

Em 2014, Neymar se machucou nas quartas de final. Em 2018, chegou de lesão. Em 2022, se machucou na estreia. Agora, em 2026, Rodrygo está fora antes mesmo de começar. Filipe Luís, quando ainda era técnico do Flamengo, falou sobre a densidade de jogos como problema crônico. Não era novidade.

O calendário do futebol mundial ficou mais denso. Clubes europeus de ponta jogam mais de 60 partidas por temporada. Os jogadores brasileiros que atuam nessas equipes chegam à Copa exauridos. Já chegavam antes. Mas o volume aumentou.

A CBF não tem controle sobre isso. Mas a seleção poderia, ao longo do ciclo de quatro anos, trabalhar com um elenco mais profundo para que a lesão de um jogador não represente uma crise. Rodrygo lesionado é um problema. Deveria ser um problema gerenciável, não uma crise de ataque.

O fato de que seja uma crise diz tudo sobre a profundidade do elenco brasileiro nessa posição.

Endrick como resposta emergencial

Endrick voltou à seleção e foi decisivo com duas participações em gols em 21 minutos contra a Croácia. Está emprestado ao Lyon, onde marcou seis gols e deu quatro assistências em 11 jogos. Para um jogador de 18 anos, os números são bons.

Mas Endrick é centroavante de área. É diferente de Rodrygo. O buraco que Rodrygo deixa não é de finalizador, é de movimentação e amplitude. São funções distintas e o Brasil precisará de soluções distintas.

A boa notícia é que Ancelotti é exatamente o tipo de técnico que sabe reorganizar um sistema em função das peças disponíveis. Não é à toa que o Real Madrid ganhou Champions consecutivas com elencos em constante mutação. Ancelotti constrói ao redor do que tem.

A má notícia é que o que tem, depois de Rodrygo, é mais limitado do que era antes.

Copa do Mundo perdoa pouco

O Brasil está no Grupo C com Marrocos, Haiti e Escócia. Uma fase de grupos favorável. Mas eliminatórias de Copa do Mundo a partir das oitavas não perdoam lacunas no setor ofensivo.

A seleção de Ancelotti chega com 52% de aproveitamento e com a perda de um dos três jogadores mais importantes do projeto. A margem para erro encolheu antes do primeiro apito.

Rodrygo vai fazer falta. Não agora, nas declarações de torcedores. No instante em que a seleção precisar de alguém que corra para o espaço por trás da última linha e chegue na área sem precisar ser o centro das atenções.

Esse instante vai chegar. E aí vamos descobrir quem consegue ser Rodrygo quando Rodrygo não está.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo