Raphinha lidera sem aparecer. O Brasil não sabe o que fazer com isso
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Fora da Caixa 2026-04-06 4 min de leitura

Raphinha lidera sem aparecer. O Brasil não sabe o que fazer com isso

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Raphinha é capitão do Barcelona quando Lewandowski não joga. Liderança reconhecida por Flick, por Marquinhos, pelo estafe da seleção. É quem chama o vestiário para si nos momentos difíceis. Quem fala quando os outros ficam calados.

E ainda assim, quando a pergunta é "quem é o líder da seleção brasileira?", o nome que surge primeiro é sempre outro. Vini Jr. porque é o melhor. Neymar porque tem história. Marquinhos porque é o capitão oficial.

Raphinha lidera sem aparecer. E o futebol brasileiro ainda não sabe o que fazer com isso.

O que falta para a seleção ter liderança de verdade

A seleção brasileira tem um problema crônico de liderança dentro de campo que nenhum técnico resolveu nos últimos 20 anos. E o problema não é falta de líderes. É excesso de protagonistas que não lideram, e líderes reais que não ganham o microfone.

Marquinhos é capitão. É sólido, profissional, respeito dentro do grupo. Mas não é o tipo de líder que transforma um jogo com postura. Não é o jogador que a seleção olha quando precisa de alguém para assumir.

O portal já cobriu a ausência de capitão de verdade. O que mudou desde então? Raphinha cresceu. Mas a seleção ainda não o tratou como o líder que ele demonstrou ser.

Por que Raphinha é diferente do que o Brasil costuma celebrar

O Brasil gosta do talento que encanta. Que dribla com estilo, que faz jogada bonita, que aparece na manchete. Neymar encantava assim. Ronaldinho encantava assim. É um padrão cultural: o craque como personagem maior que o jogo.

Raphinha não encanta assim. Raphinha trabalha. Corre. Pressiona. Chega na área com consistência que não depende de inspiração. No Barcelona, lidera mais por comprometimento do que por genialidade.

Com 29 anos, na melhor fase da carreira, somando 34 jogos pelo Chelsea nesta temporada com oito gols e quatro assistências, Raphinha está no pico. Mas o pico dele não é espetacular no sentido cinematográfico. É consistente. E o Brasil, historicamente, confunde consistência com mediocridade.

O dado que coloca em perspectiva

Raphinha chegou à seleção como um dos nomes mais seguros da convocação de Ancelotti. Em momento em que Vini Jr. oscila, em que Rodrygo está fora, em que o debate sobre Neymar ainda não acabou, Raphinha é o único atacante titular que chega à Copa sem polêmica em cima do seu nome.

Ninguém questiona se ele deve ir. Ninguém debate se ele vai render. O técnico do Barcelona elogia publicamente sua liderança. Marquinhos fala que o trabalho dele é crucial. Ancelotti o trata como titular estabelecido.

Em qualquer análise fria, Raphinha é o atacante mais confiável que a seleção tem. Mas a narrativa que domina ainda é sobre Vini, sobre Neymar, sobre Endrick, sobre os nomes com mais brilho individual.

O jogador mais seguro vira coadjuvante na história porque não é o protagonista mais glamouroso.

O que Copa do Mundo vai revelar

Em grandes torneios, nos jogos que decidem, liderança dentro de campo vale mais do que talento individual. A Croácia que eliminou o Brasil em 2022 tinha Modric. Não o melhor jogador do mundo. O melhor líder em campo naquele dia.

A Argentina de 2022 tinha Messi, sim. Mas tinha Di Maria assumindo responsabilidade na final. Tinha De Paul correndo por todos. Tinha uma equipe que sabia liderar coletivamente.

O Brasil vai para a Copa dependendo de que Vini Jr. brilhe. De que Endrick entregue acima da expectativa. De que a ausência de Rodrygo seja absorvida por alguém.

Ou dependendo de que Raphinha seja exatamente o que sempre foi: o jogador que faz o time funcionar quando os outros precisam de mais tempo para aquecer.

A pergunta que o Brasil deveria estar fazendo

Não é "Neymar vai ou não vai?". Não é "Vini Jr. vai resolver?". É: quem vai liderar dentro de campo quando a seleção estiver perdendo por 1 a 0 nas quartas de final com 20 minutos para o apito final?

O único nome que aparece como resposta consistente é Raphinha.

O Brasil deveria estar celebrando isso. Deveria estar construindo a narrativa da Copa em cima disso. Deveria estar tratando o capitão de fato como o protagonista que o jogo vai precisar.

Em vez disso, ainda discute se Neymar vai ser convocado.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo