R$ 180 por mês para ver seu time. Tá bom assim?
Foto: Reprodução
Fora da Caixa 2026-04-06 4 min de leitura

R$ 180 por mês para ver seu time. Tá bom assim?

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Para assistir a todos os jogos do seu clube no Brasileirão 2026, você precisa de Globoplay, Premiere, Prime Video e, dependendo da rodada, acompanhar a CazéTV no YouTube. Se o time joga Libertadores, entra o Paramount+. Se joga Copa do Brasil, o Sportv entra na conta. A soma, segundo levantamento da Gazeta de São Paulo, chega a R$ 180 por mês.

R$ 180 por mês para assistir ao futebol do seu clube.

Em 2010, você ligava a televisão.

Por que ninguém fala que isso é um problema de acesso?

O debate sobre os direitos de transmissão do futebol brasileiro é sempre enquadrado como disputa de mercado. Globo versus streaming. Caio Coppolla versus Casimiro. Liga forte versus liga fraca. Quem paga mais, quem transmite melhor, quem tem mais assinantes.

O torcedor some desse debate. Ninguém pergunta o que acontece com a pessoa que ganha dois salários mínimos, torce pelo Atlético-GO e não pode pagar R$ 180 por mês para ver os jogos do clube que ama.

A resposta implícita do sistema é: essa pessoa vai assistir ao jogo que a Globo colocar na TV aberta e ser grata. Um jogo por rodada, às vezes o do seu time, frequentemente não.

Como chegamos até aqui

A fragmentação começou com a lógica correta: mais competição pelos direitos gera mais dinheiro para os clubes, que investem em elenco, que melhora o produto, que atrai mais audiência. O raciocínio faz sentido no papel.

Na prática, o que aconteceu foi uma corrida de plataformas onde cada uma comprou um pedaço do futebol, criou exclusividade dentro do seu pedaço, e transferiu o custo total para o torcedor que quer o produto inteiro. O Brasileirão 2026 tem jogos distribuídos entre Globo aberta, Sportv, Premiere, CazéTV, Prime Video e sócio-torcedor dos clubes. São seis pontos de acesso diferentes para um único campeonato.

Nenhuma plataforma fez isso por acidente. Cada uma calculou que o torcedor prefere pagar a deixar de ver. E em grande parte estão certas. Mas o custo cumulativo nunca foi o objetivo declarado de nenhuma delas. É o resultado não intencional de decisões individuais que fazem sentido para cada empresa e produzem um absurdo coletivo.

O modelo inglês que o Brasil citou e não copiou

Quando o futebol brasileiro começou a discutir a formação das ligas e a distribuição de direitos, a Premier League foi citada como referência. Com razão parcial: a liga inglesa construiu o produto mais valioso do futebol mundial em parte graças à gestão coletiva dos direitos de transmissão.

Mas há um detalhe que o futebol brasileiro esqueceu de mencionar. Na Inglaterra, o governo estabeleceu por lei que determinados eventos esportivos de interesse nacional, incluindo jogos da seleção e finais de copa, precisam estar disponíveis em TV aberta gratuitamente. O direito de acesso ao esporte é tratado como questão de política pública, não apenas de mercado.

No Brasil, a discussão nunca chegou nesse nível. Nem o Congresso, nem o Ministério do Esporte, nem a CBF colocaram acesso do torcedor como variável relevante na negociação dos direitos. O que estava em jogo era receita dos clubes e fatia de mercado das plataformas.

O torcedor pobre sumiu das arquibancadas e agora some das telas

Durante décadas, o ingresso barato foi o mecanismo de inclusão do torcedor de baixa renda no futebol brasileiro. A arquibancada popular custava pouco, o ambiente era democrático, e o futebol era o evento de lazer acessível por excelência.

Isso mudou com a modernização dos estádios pós-Copa de 2014. Os preços subiram, as cadeiras populares encolheram, e o perfil do público nos grandes clássicos ficou mais restrito economicamente. O futebol presencial virou experiência de classe média para cima nos grandes centros.

Agora a mesma lógica alcança a transmissão. O torcedor que não pode pagar R$ 180 por mês assiste ao jogo disponível na TV aberta, se houver, ou segue pelo celular em streams de qualidade duvidosa que o próprio mercado não consegue eliminar porque criou a demanda ao tornar o acesso caro demais.

Ninguém planejou excluir o torcedor pobre. Mas o resultado é esse.

O que poderia ser diferente

A solução não é simples nem passa por romantismo de volta ao passado. As plataformas de streaming existem e vieram para ficar. O dinheiro que elas injetam no futebol é real e relevante para os clubes.

Mas é possível exigir, como política pública, que uma cota mínima de jogos por rodada esteja disponível gratuitamente. Que a final de cada competição seja transmitida em TV aberta sem restrição. Que o acesso básico ao produto seja garantido independentemente da capacidade de pagamento do torcedor.

Isso não prejudica o mercado. A Premier League faz isso e tem os direitos mais caros do mundo. A NFL americana faz isso e é o produto esportivo mais lucrativo do planeta. Acesso gratuito para eventos selecionados e acesso pago para o catálogo completo são modelos que coexistem sem se destruir.

No Brasil, a discussão ainda não começou de verdade. Enquanto isso, R$ 180 por mês. Todo mês. Para ver o time que você ama desde criança, que não escolheu, que está no seu sangue.

O futebol brasileiro diz que quer ampliar sua base de torcedores. Quer, sim. Desde que eles paguem para entrar.

Leia também no Armador: Ranking Armador: os 10 da rodada 10 e Derby da rodada 11: Palmeiras x Corinthians.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo