PSG ganhou a Champions sem Mbappé. O Brasil não aprendeu nada
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Fora da Caixa 2026-04-06 3 min de leitura

PSG ganhou a Champions sem Mbappé. O Brasil não aprendeu nada

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Mbappé passou sete anos no PSG. Marcou 256 gols. Pediu Copa da Europa. Brigou com a diretoria. Disse que sem ele o projeto não funcionaria. Foi para o Real Madrid em 2024.

Um ano depois, o PSG ganhou a Liga dos Campeões por 5 a 0 sobre a Inter de Milão.

A lição parece óbvia. Mas o futebol brasileiro, de forma sistemática, prefere ignorá-la.

O que a conquista do PSG prova sobre dependência de estrela

Durante anos, a narrativa dominante no PSG era de que Mbappé era o projeto. Que sem ele não havia Champions League. Que a saída seria catastrófica. Que nenhum time vence o maior torneio do mundo sem seu melhor jogador.

Luis Enrique assumiu o PSG com uma proposta radicalmente diferente. Não existe estrela intocável. O coletivo é a identidade. Nenhum jogador é maior do que o sistema. Quando Mbappé saiu, em vez de colapso, houve liberação. O vestiário se unificou. Os demais jogadores ganharam protagonismo que o ambiente anterior comprimia.

O PSG ganhou a Champions com Ousmane Dembélé como protagonista absoluto. Com Vitinha construindo o jogo. Com um time que joga futebol coletivo de altíssimo nível.

Mbappé foi embora. O projeto ficou. E cresceu.

O contraexemplo que o Brasil nunca quis ver

O futebol brasileiro tem um problema estrutural de narrativa: ele sempre construiu a seleção em torno de um único protagonista. Romário. Ronaldo. Ronaldinho. Kaká. Neymar. Vini Jr.

Não é que esses jogadores não mereçam protagonismo. Merecem. O problema é que o Brasil nunca construiu um projeto que existisse independentemente deles. A seleção que Scolari montou em 2002 foi uma exceção: tinha Ronaldo, mas tinha um time que funcionava mesmo quando Ronaldo não estava brilhante.

Desde 2006, a dependência de um protagonista único voltou a ser o modelo. E os resultados são conhecidos: eliminações nas oitavas, quartas e nas semifinais de 2014, com o 7 a 1 que ainda dói.

O PSG de Luis Enrique mostrou que é possível vencer o torneio mais competitivo do mundo construindo coletivo. Que a saída de uma superestrela pode ser libertadora quando o treinador tem projeto.

O que Ancelotti poderia aprender com Luis Enrique

Ancelotti é um mestre de gestão de elenco. Mas seu histórico no Real Madrid é de um técnico que potencializa estrelas, não de um que constrói sistemas independentes delas.

No Real, isso funciona porque o clube tem cinco ou seis jogadores de elite mundial ao mesmo tempo. Quando um não está em dia, outro brilha. A qualidade do plantel absorve as variações individuais.

Na seleção brasileira, o elenco não tem essa profundidade. Quando Vini Jr. não está em dia, o time parece perdido. Quando Rodrygo se lesiona, cria-se uma crise. Quando Neymar está fora, o debate dominante é se a seleção consegue jogar sem ele.

O PSG provou que a resposta correta para "como jogar sem a sua maior estrela" não é "não sei". É ter um sistema que não dependa de uma única solução.

O que o 5 a 0 sobre a Inter significa além do futebol

A goleada na final não foi acidente. O PSG, ao longo do torneio, mostrou consistência defensiva e eficiência ofensiva que não dependiam de um gênio individual inventando jogada.

Dembélé fez a diferença porque o sistema o colocou em posições para fazer a diferença. Vitinha foi determinante porque o time construiu para que ele fosse. É uma diferença fundamental: a estrela como consequência do sistema, não como condição para ele.

O Brasil, daqui a dois meses, vai para a Copa com um projeto que ainda está sendo construído. Com um técnico que tem 14 meses no cargo e uma lesão importante no ataque. Com a pergunta sobre Neymar ainda sem resposta definitiva.

O PSG levou seis anos para encontrar o caminho depois que entendeu que estrela não é identidade. Que projeto é identidade.

O Brasil ainda está aprendendo essa lição. E a Copa começa em junho.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo