Premier League 2025/26: menos passes, mais bola longa e arremessos que valem gol
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Leitura Tática 2026-04-06 4 min de leitura

Premier League 2025/26: menos passes, mais bola longa e arremessos que valem gol

Rafael Teixeira
Jornalista Esportivo
## O número que explica a temporada A Premier League 2025/26 registrou 873 passes por jogo em média após 210 rodadas. É o menor número desde a temporada 2012/13. A comparação direta com as temporadas de 2019 a 2022, quando o futebol inglês estava no pico do ciclo de construção e posse, revela uma queda de 12,7% no volume de passes. Não é acidente. É adaptação. Os treinadores da Premier League responderam ao pressing alto organizado da última década com futebol mais direto. A pergunta agora é se essa tendência permanece ou se os times que resistirem ao pragmatismo encontram vantagem competitiva. ## Arremessos laterais longos: um dado que não existia A estatística mais reveladora da temporada é a dos arremessos laterais longos. Na temporada 2024/25, a média era de 1,52 arremessos longos por partida. Em 2025/26, o número subiu para 3,99, crescimento de 162%. É a adoção em escala de um recurso que, nos anos anteriores, era restrito a um ou dois times. O impacto direto nos gols confirmou a viabilidade do recurso: na temporada passada, um gol saía de arremesso longo a cada 27 jogos. Em 2025/26, a frequência caiu para 1 a cada 11,25 partidas. Times que treinaram a sequência de arremesso mais primeiro contato mais chute estão convertendo o recurso em pontos. A lógica tática é direta: o arremesso longo não aciona a regra do impedimento. É uma forma de colocar a bola na área adversária sem o risco de bandeira levantada, e com um ângulo de ataque diferente do escanteio ou da falta. Equipas que identificaram jogadores com braço forte no elenco passaram a explorar sistematicamente. ## Bolas longas no reinício de jogo O dado dos chutes de meta reforça a mudança de mentalidade. Na temporada 2024/25, 40,4% dos chutes de meta terminavam no campo adversário. Em 2025/26, o número subiu para 48,2%. Quase metade dos chutes de meta agora são bolas longas que buscam o confronto aéreo no meio-campo. Isso tem custo tático: time que joga bola longa abre mão de construção posicional. Abre mão do desgaste adversário pelo passe. Aceita o duelo físico no segundo lance. Mas, ao mesmo tempo, evita o pressing organizado nos 40 metros iniciais, que foi o mecanismo dominante na Premier League de 2016 a 2023. O pressing alto perdeu eficiência quando os times adversários passaram a contorná-lo pela bola longa e pela progressão direta. A adaptação está documentada nos dados. ## Bola parada e o quarto de gols Em 210 jogos de 2025/26, 31 dos 124 gols vieram de bola parada, excluindo pênaltis. Exatamente 25% do total. O número é o mais alto da era de dados públicos na Premier League. A distribuição entre tipos de bola parada mostra concentração em escanteios, com 14 dos 31 gols. Faltas laterais somam 9. Arremessos longos, 5. Cobranças diretas, 3. O investimento em bola parada não é novidade, mas a escala é. Times com data analytics dedicada a bola parada, como Arsenal, Brighton e Brentford nos anos anteriores, abriram um caminho que foi seguido por boa parte da liga. Em 2025/26, o gap entre quem treina bola parada e quem não treina é mensurável em tabela. ## O que isso significa para os que ainda jogam com posse O Manchester City de Guardiola é o caso mais estudado de time que resistiu ao pragmatismo crescente. Com a quarta maior média de passes da liga (ainda acima de 900 por jogo), o City mantém a identidade construtiva mas aceitou ajustes: mais bolas diretas no contra-pressing e mais uso de falsos 9 para atrair a linha defensiva adversária. Arsenal e Chelsea são os dois outros times com média acima de 870 passes por jogo. Os três formam um grupo distinto da tendência geral. O dado relevante é que os três estão no top 5 da tabela, o que sugere que o futebol de posse ainda tem espaço, mas exige mais recursos técnicos para funcionar numa liga que cada vez mais tenta contorná-lo. ## Diagnóstico A Premier League 2025/26 é mais direta, mais pragmática e cada vez mais decidida em bola parada e no segundo lance. A tendência é uma resposta adaptativa ao pressing organizado da última década. O futebol inglês está resolvendo um problema tático com a solução mais antiga do jogo.
Rafael Teixeira Jornalista Esportivo

Rafael Teixeira tem 34 anos e nasceu em Goiânia. Formado em Educação Física pela UFG, trabalhou como analista de performance no Goiás EC entre 2018 e 2022, onde participou do acesso à Série A em 2018.... Ler perfil completo