O técnico que o Brasil procura não existe
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Fora da Caixa 2026-04-07 3 min de leitura

O técnico que o Brasil procura não existe

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O Brasil quer um tecnico que ganha Copa do Mundo, mantem os craques felizes, define identidade em tres meses de preparacao, nunca erra escalacao e ainda sabe lidar com imprensa, CBF, patrocinadores e torcida ao mesmo tempo.

Esse tecnico não existe. E o Brasil vai continuar frustrado enquanto procurar por ele.

Ancelotti e o melhor tecnico de clube da historia. Oito Champions League como jogador e treinador. Ganhou em Italia, Franca, Inglaterra, Espanha e Alemanha. Sabe lidar com estrelas. Sabe gerenciar pressao. Por isso foi contratado. Mas a pergunta que poucos fazem e: o que torna um tecnico excepcional em clube funciona igualmente em seleção?

Clube e seleção sao jogos diferentes

Em clube, o tecnico tem o elenco todos os dias. Pode treinar sistema, criar automatismos, ajustar posicionamento ao longo de semanas e meses. Pode construir cultura de jogo. Pode identificar quem funciona ao lado de quem depois de centenas de horas de treinamento.

Em seleção, o tecnico tem o elenco por dias, as vezes semanas antes de torneios. O grupo se junta, joga, se dissolve. Nao ha continuidade de trabalho diario. Nao ha como criar automatismos complexos em tempo tao curto. O que funciona em seleção e diferente do que funciona em clube: clareza de sistema, facilidade de assimilacao, jogadores que conhecem seus papeis sem precisar de instrucao constante.

Scaloni entendeu isso. O sistema argentino e simples de entender e difícil de executar: pressao alta organizada, saida de bola em tres linhas, explorar velocidade nas pontas. Qualquer jogador convocado sabe o que vai fazer antes de chegar ao treino. A Espanha de De la Fuente funciona igual. Sistema claro, principios definidos, execucao autonoma.

Ancelotti adaptou. O Brasil de 2026 e mais pragmatico do que o de ciclos anteriores. Mas Ancelotti ainda esta aprendendo o que e seleção. E essa curva de aprendizado vai acontecer durante a Copa, não antes.

O problema não e o tecnico

O Brasil tem um problema anterior ao tecnico. Tem um problema de como pensa seleção nacional.

O Brasil trata a seleção como empresa de talentos: convoca os melhores, espera que joguem bem e reclama quando não funciona. Mas os melhores jogadores do Brasil jogam em sistemas diferentes, em filosofias diferentes, em leagues que exigem coisas diferentes. Juntar esses jogadores e esperar coesao imediata e ignorar o que o futebol moderno ensinou.

A Argentina de 2022 era coesa porque Scaloni trabalhou por quatro anos construindo identidade. Perdeu jogos importantes no processo. Sofreu critica. Mas manteuve o sistema. Quando chegou a Copa, o time sabia quem era. O Brasil não deu esse tempo a nenhum tecnico nos ultimos dez anos. Tite foi excecao parcial -- ficou oito anos mas não construiu identidade taticamente reconhecivel.

O que o Brasil precisa aceitar

O Brasil precisa aceitar que Ancelotti vai errar durante a Copa. Todo tecnico erra. A questao e se o sistema e o elenco sao robustos o suficiente para sobreviver a esses erros.

O Brasil precisa aceitar que pode cair nas quartas de final. Vinte e quatro anos sem titulo não e sequencia de azar. E padrao que precisa ser tratado como dado, não como anomalia.

E o Brasil precisa aceitar que o tecnico perfeito para seleção não e o melhor tecnico de clube do mundo. E o tecnico que melhor entende a diferenca entre clube e seleção, que organiza com clareza, que deixa o jogador jogar em vez de ensinar durante o jogo.

Ancelotti pode ser esse tecnico. Tem inteligencia e experiencia para aprender rapido. Mas vai precisar de algo que o Brasil raramente da: tempo, paciencia e o beneficio da duvida quando o caminho ainda não esta claro. Se a Copa correr mal, o debate vai ser sobre quem deveria ter sido contratado. Esse debate vai ignorar que o problema e anterior a qualquer tecnico. E a Copa vai mostrar mais uma vez que o Brasil não resolveu as questoes estruturais que impedem o hexa. O tecnico e o ultimo da fila de responsabilidades. Mas e o primeiro a ser culpado.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo