O futebol virou comercial de aposta. E agora?
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Fora da Caixa 2026-04-06 4 min de leitura

O futebol virou comercial de aposta. E agora?

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Abra qualquer jogo do Brasileirão 2026. Olhe a camisa do time. Olhe o placar eletrônico. Olhe os intervalos de transmissão. Em algum ponto, provavelmente em todos os três, aparece o nome de uma casa de apostas esportivas.

O futebol brasileiro não tem mais patrocinador máster. Tem bet máster.

A Bet7k paga entre R$ 50 e R$ 55 milhões ao Santos. Estrelabet, Esporte da Sorte, Betnacional, Betano: os nomes mudam, o produto é o mesmo. Apostar dinheiro em resultados que você não controla, com probabilidades calculadas para garantir lucro à casa no longo prazo.

E o futebol, que historicamente se apresentou como entretenimento familiar e popular, decidiu que esse é o parceiro ideal.

O dado que ninguém quer colocar no mesmo parágrafo que o patrocínio

Uma pesquisa do Procon-SP mostrou que 39,7% dos apostadores declararam ter se endividado após começar a usar plataformas de apostas. Quatro em cada dez apostadores. Endividados.

O perfil de quem mais se endivida não é o apostador casual de alta renda. É o trabalhador de baixa e média renda que enxergou na aposta esportiva uma possibilidade de complementar o salário, foi atraído pela publicidade onipresente, e ficou preso num ciclo de recuperar a perda anterior com a próxima aposta.

Esse é o público que assiste ao futebol. Esse é o público que as bets miram. E o futebol cedeu seu espaço, sua credibilidade e sua audiência para esse produto sem fazer nenhuma pergunta sobre o que acontece com a pessoa do outro lado da aposta.

O Senado viu o problema. O futebol ainda não.

Em 2026, o Senado aprovou projeto que veta publicidade e patrocínio de casas de apostas esportivas no Brasil. A notícia foi recebida com alarme pelos clubes, que calcularam uma perda potencial de R$ 842 milhões em receita de patrocínio caso a proibição entre em vigor.

R$ 842 milhões. Esse é o tamanho da dependência que o futebol brasileiro construiu em relação a um setor que lucra com o endividamento de parte de seus clientes.

A reação dos clubes foi imediata: lobbying contra o projeto, argumentos sobre impacto econômico, preocupação com a sustentabilidade financeira da Série A. Tudo legítimo do ponto de vista dos interesses dos clubes. Mas nenhum dos comunicados mencionou os 39,7% de apostadores endividados. Nenhum discutiu responsabilidade sobre o produto que estampam na camisa.

O que a Europa fez quando teve o mesmo problema

A Espanha proibiu em 2021 que casas de apostas patrocinassem camisas de clubes de futebol. A medida foi controversa, custou receita aos clubes no curto prazo e foi contestada pelo mercado. Três anos depois, o LaLiga Santander virou LaLiga EA Sports, com um patrocinador de tecnologia. O produto não colapsou. O futebol espanhol continuou sendo um dos mais assistidos do mundo.

A Itália proibiu publicidade de apostas em 2019 com o Decreto Dignidade. Os clubes da Serie A encontraram patrocinadores alternativos. Juventus, Inter de Milão e Milan fecharam acordos com seguradoras, bancos e marcas de tecnologia. O modelo sobreviveu.

Em ambos os casos, o futebol europeu provou que a dependência das bets não era inevitável. Era uma escolha de curto prazo que criou um problema de médio prazo.

O futebol como vetor de normalização

Existe algo mais sério do que a discussão financeira, que raramente é dito com clareza: o futebol tem autoridade cultural no Brasil. Quando um clube coloca uma bet na camisa, está dizendo ao seu torcedor que apostar é parte natural de torcer pelo time. Está usando décadas de vínculo emocional para vender um produto que tem probabilidade matemática de causar prejuízo financeiro a quem o usa de forma recorrente.

Isso não é igual a patrocinar cerveja, refrigerante ou banco. É diferente porque aposta esportiva tem mecanismo de vício documentado clinicamente. A dopamina liberada pela quase-vitória, pelo quase acertei, pelo na próxima acerto, é o mesmo mecanismo que mantém pessoas no cassino além do que planejavam ficar.

O futebol não criou esse mecanismo. Mas está sendo pago para normalizá-lo na vida de milhões de torcedores que confiam no clube como referência.

O que o futebol pode fazer que vai além da regulação

A regulação vai vir de alguma forma. O projeto do Senado pode ser aprovado, modificado ou bloqueado, mas a pressão social sobre publicidade de apostas não vai diminuir. O futebol pode esperar ser regulado ou pode se antecipar.

Antecipar significa ter uma posição sobre o produto que estampa na camisa. Significa criar critérios de patrocínio que incluam responsabilidade do parceiro com jogo responsável de forma real, não como nota de rodapé no site. Significa usar a audiência para informar o torcedor sobre risco de endividamento com a mesma frequência com que a bet usa essa audiência para vender o produto.

Nenhum clube brasileiro fez isso ainda. Todos eles têm campanhas de futebol contra racismo, contra homofobia, contra violência nas arquibancadas. Zero campanhas dizendo ao torcedor: se você apostar mais do que pode perder, existe ajuda disponível.

O futebol decidiu que esse é problema do apostador, não do patrocinador, não do clube. Mas colocou o nome da bet no peito da camisa.

Quando a conta chegar, e ela está chegando, vai ser difícil argumentar que não sabia o que estava vendendo.

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Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo