Em fevereiro de 2026, o Clássico-Rei entre Fortaleza e Ceará terminou com 350 pessoas presas. Em Belo Horizonte, o confronto entre Máfia Azul e Galoucura deixou um morto e dois baleados. Em São Paulo, ao menos três mortes ligadas a brigas entre torcidas foram registradas nos primeiros meses do ano.
E o Brasileirão seguiu normalmente no fim de semana seguinte.
A pergunta que o futebol brasileiro se recusa a fazer é simples: em qual outro espetáculo de entretenimento do mundo 382 mortes em 30 anos seriam tratadas como ruído de fundo?
Por que ninguém fecha um estádio?
Em 2022, depois da morte de um torcedor do Athletico-Paranaense em confronto com membros da Máfia Azul do Cruzeiro, o estádio Mineirão ficou fechado para jogos do Cruzeiro por alguns dias. Isso foi apresentado como punição exemplar. Dias. Por uma morte.
O problema real é que ninguém no futebol brasileiro quer arcar com o custo real de resolver o problema. Fechar um estádio por tempo indeterminado significa perder receita de bilheteria, perder exposição televisiva, perder patrocínio. Os clubes preferem pagar multas, assinar termos de compromisso e aguardar a próxima rodada.
A CBF e as federações estaduais operam com a mesma lógica. Cada morte vira um comunicado de repúdio. Cada comunicado de repúdio vira papel. E o papel não muda nada.
O modelo de torcida única não resolve. Mas ninguém oferece o que resolve.
São Paulo completa dez anos de torcida única em 2026. Quase 200 clássicos foram realizados com torcedor único no estado. A violência dentro dos estádios diminuiu. A violência fora dos estádios continua.
Porque o problema nunca foi o estádio. O problema é a estrutura das torcidas organizadas brasileiras, que em vários casos tem conexão documentada com o crime organizado. A Gazeta do Povo publicou reportagem mostrando como facções criminosas avançaram sobre torcidas organizadas em estados como Ceará, usando a estrutura de mobilização das torcidas para recrutamento e controle territorial.
Quando o problema é esse, torcida única não resolve. É como fechar a janela enquanto a porta está aberta.
O que o futebol europeu fez que o Brasil se recusa a fazer
Na Inglaterra dos anos 1980, o futebol tinha um problema parecido. O desastre de Heysel, em 1985, matou 39 torcedores num confronto entre Juventus e Liverpool. O desastre de Hillsborough, em 1989, matou 97 pessoas numa tragédia de gestão de segurança. A resposta inglesa foi radical: todos os estádios da Premier League viraram arenas com assento obrigatório, controle rigoroso de acesso, câmeras em cada setor e banimento vitalício para envolvidos em violência.
O modelo funcionou. A Premier League saiu do estado de guerra civil nas arquibancadas para se tornar o campeonato mais assistido do mundo em três décadas.
No Brasil, a resposta ao mesmo problema é uma comissão parlamentar que aprova penas maiores de um para quatro anos de prisão, como aconteceu em fevereiro de 2026. A medida é bem-vinda. Mas pena maior sem estrutura de investigação, sem câmeras suficientes, sem identificação biométrica nos estádios e sem responsabilização dos dirigentes das torcidas não muda nada na prática.
O torcedor que paga ingresso e tem medo de ir ao estádio
Uma pesquisa de 2024 mostrou que 67% dos brasileiros apontam o medo de violência como principal razão para não ir aos estádios. Não é o preço do ingresso. Não é a distância. É o medo de ser agredido.
Isso deveria ser a maior crise do futebol brasileiro. Um produto que dois terços do seu público potencial evita por questão de segurança não é um produto saudável. É um produto em colapso lento que aprendeu a disfarçar o problema com audiência de televisão.
Os clubes enchem os cofres com direitos de transmissão e convencem a si mesmos de que está tudo bem. O torcedor que iria ao estádio com a família fica em casa. O setor que iria ao estádio com a empresa escolhe outro evento. E o público que efetivamente vai é cada vez mais filtrado pelo perfil de quem não tem medo, o que não é exatamente o público que patrocinadores querem associar à sua marca.
Quem é responsável por isso?
A resposta fácil é: as torcidas organizadas. E elas são, sim. Os líderes que organizam confrontos, que recrutam jovens para brigas marcadas, que mantêm estrutura de violência precisam ser responsabilizados criminalmente.
Mas a resposta completa inclui outros nomes.
Os clubes, que durante décadas trataram as torcidas organizadas como capital político, oferecendo ingressos gratuitos, viagens subsidiadas e acesso privilegiado em troca de apoio nas eleições internas. Essa relação criou uma dívida que os clubes não conseguem cobrar.
As federações, que aplicam multas que os clubes grandes pagam sem piscar e seguem em frente.
A CBF, que nunca assumiu liderança real no tema. Que reagiu à morte de torcedores com comunicados e à pressão por transparência na arbitragem com reuniões de crise. As prioridades estão às claras.
E o poder público, que terceiriza para o futebol um problema que tem raízes na desigualdade, no crime organizado e na ausência do Estado em periferias, e depois se surpreende quando a solução do futebol não chega.
A conclusão que o futebol não quer tirar
382 mortes em 30 anos é uma guerra. Uma guerra de baixa intensidade, fragmentada em episódios que nunca chegam a acumular pressão suficiente para forçar uma mudança real.
O Brasileirão de 2026 começou com três mortes em São Paulo, 350 presos no Ceará e um morto em Minas Gerais. A rodada seguinte aconteceu normalmente. Os ingressos foram vendidos. Os jogos foram transmitidos. Os patrocinadores exibiram suas marcas.
O futebol brasileiro aprendeu a conviver com a violência como se fosse condição permanente do esporte. Não é. É escolha. E escolha tem responsável.
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