O Brasileirao nao tem problema de talento. Tem problema de produto.
Wikimedia Commons / Agencia Brasil
Fora da Caixa 2026-04-07 3 min de leitura

O Brasileirao nao tem problema de talento. Tem problema de produto.

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O Brasileirao tem qualidade tecnica para ser um dos tres melhores campeonatos do mundo. Em media de jogadores por nivel, em densidade de talento, em velocidade e intensidade. Nao e opiniao -- e o que dados comparativos entre ligas mostram.

E no entanto, o Brasileirao nao e tratado como os tres melhores campeonatos do mundo. Nem na transmissao. Nem nos estadios. Nem na gestao de marca. Nem no calendario. Nem no horario dos jogos. A qualidade tecnica nao e o problema. O produto e.

Todo mundo sabe disso e ninguem resolve. Por que?

O estadio como primeiro problema

O estadio brasileiro e o produto que o talento nao merece. Arquibancadas velhas, banheiros precarios, cadeiras quebradas, nenhuma area de familia adequada, nenhuma experiencia gastronômica, seguranca insuficiente para mulheres e criancas. O torcedor que leva a familia para o estadio enfrenta um conjunto de obstaculos que nao encontraria em um shopping center.

Premier League, Bundesliga e La Liga resolveram isso -- e o publico cresceu. Sao arenas projetadas para experiencia, nao so para futebol. Comida, entretenimento, seguranca, conforto. O torcedor que vai uma vez volta. O que foi ao estadio brasileiro uma vez as vezes nao volta mais.

A Arena Neo Quimica, o Allianz Parque, o Estadio do Fluminense sao excecoes positivas. Sao poucos. A maioria dos estadios da Serie A e do Brasileirao -- incluindo estadios de clubes que brigam por titulo -- nao oferece experiencia que justifique o custo e o deslocamento para torcedores de classe media.

O calendario que ninguem respeita

O Brasileirao comeca antes do Europeu e termina depois de quase todo mundo. Em agosto, clubes brasileiros perdem jogadores para venda de ultima hora -- porque o mercado europeu fecha em agosto e o brasileiro aceita ate setembro. Em setembro, o campeonato para para data FIFA. Em outubro, para de novo. O produto nao tem continuidade narrativa porque o calendario nao permite.

A Premier League tem narrativa continua de agosto a maio. Toda semana, o debate e sobre o que aconteceu no fim de semana e o que vai acontecer no proximo. O Brasileirao tem interrompentes constantes que quebram o engajamento do torcedor que nao e obsessivo. Torcedor casual nao consegue acompanhar porque quando ele volta, ja perdeu tres rodadas de contesto.

O marketing que ainda nao existe

O Brasileirao 2026 tem o Palmeiras de Abel -- o melhor time do pais ha uma decada. Tem o Fluminense de Zubeldía -- provavelmente a maior ascensao tatical do campeonato. Tem o colapso do Botafogo campeao de 2024 que agora briga para nao cair. Tem a crise do Atletico-MG e do Flamengo. Tem o Bahia com jogo coletivo que impressiona. Essas sao narrativas. Sao produtos.

A CBF e os clubes nao vendem essas narrativas. Cada clube cuida da propria marca. Ninguem vende o campeonato como produto coletivo. Quando a NFL vende futebol americano, vende o campeonato -- nao so o time local. O consumidor que nao tem time favorito compra o produto porque o produto tem narrativa. O Brasileirao nao vende narrativa -- vende jogo por jogo, time por time, e perde torcedor que nao tem time mas poderia ter campeonato.

O que precisa mudar e quem precisa mudar

Clubes. CBF. Confederacao de arbitragem. Transmissoras. Todos eles. O produto nao muda com um agente isolado. Muda com governanca coletiva orientada para experiencia do torcedor. Isso e o que a Premier League fez nos anos 90 -- e transformou o campeonato em produto global.

O Brasileirao tem os ingredientes. Tem talento, tem rivalidade, tem historia. Falta visao de que campeonato e produto. Que torcedor e cliente que pode ir embora. Que estadio ruim, calendario confuso e falta de narrativa sao razoes para perder esse cliente.

Enquanto o debate no futebol brasileiro for sobre quem ganhou o classico e nao sobre como tornar o classico um evento que vai ao estadio 70 mil pessoas, o produto vai continuar sendo menor do que o talento que tem dentro dele. E isso e o verdadeiro desperdicio do futebol brasileiro.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo