O Brasil forma ídolos para os outros torcerem
Foto: Rafael Ribeiro/CBF
Fora da Caixa 2026-04-06 5 min de leitura

O Brasil forma ídolos para os outros torcerem

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Endrick tem 18 anos, está emprestado ao Lyon depois de não conseguir espaço no Real Madrid, e a imprensa europeia já escreve que ele e o clube devem melhorar ou a temporada será difícil. O jogador que o Brasil inteiro acompanhou como promessa histórica, que foi vendido ao clube mais rico do mundo, está a cinco jogos sem marcar, tocando na bola 26 vezes por partida e recebendo crítica de jornal francês.

E no Brasil, a resposta é o silêncio de quem prefere não fazer a pergunta incômoda: o que acontece quando exportamos um jogador antes de ele estar pronto?

A fábrica que vende a matéria-prima

Em apenas um mês de 2026, os clubes brasileiros ultrapassaram R$ 1 bilhão em arrecadação com venda de jogadores. Em uma década, o Brasil acumulou mais de 1 bilhão de euros em transferências para a Europa. O país é líder mundial na exportação de atletas.

Esses números são vendidos como sinal de saúde do futebol brasileiro. E em partes são. A base do futebol nacional é de fato extraordinária. O problema não é o que o Brasil produz. É quando e como entrega.

Endrick jogou pouco mais de uma temporada e meia no profissional pelo Palmeiras antes de ir ao Real Madrid. Breno Bidon, apontado como um dos cinco jovens do Brasileirão 2026 que devem partir para a Europa no meio do ano, tem 20 anos e menos de duas temporadas completas no nível mais alto. O modelo é sempre o mesmo: detectar, promover, vender. O mais rápido possível, antes que outro clube faça uma oferta menor.

O resultado é o que vemos no Lyon. Um talento real, ainda em formação, colocado num ambiente de pressão imediata por resultado, sem a paciência que o desenvolvimento de um atleta jovem exige.

O ídolo que o Brasil não consegue mais criar

Existe algo que clubes como Flamengo, Palmeiras e Corinthians perderam nas últimas décadas: o ídolo formado e mantido. Aquele jogador que chega aos 17, vira titular aos 19, conquista título aos 21 e aos 25 já é o rosto do clube. Zico ficou. Sócrates ficou. Romário ficou tempo suficiente para virar lenda.

Hoje, o ciclo dura dois anos no máximo. O jogador surge, a Europa oferece 20 milhões de euros, o clube vende porque precisa do caixa, e o torcedor assiste ao próximo talento surgir da base para repetir o ciclo. O futebol brasileiro virou um serviço de streaming de promessas: conteúdo novo toda temporada, nada que dure.

67% dos brasileiros citam o medo de violência como razão para não ir ao estádio. Mas há outro motivo que aparece nas conversas: não há mais razão de se apegar. O jogador que você começa a admirar em fevereiro pode estar na Serie A italiana em julho.

O caso Endrick expõe um problema de gestão, não de talento

Endrick é um atleta excepcional. Isso não está em discussão. O que está em discussão é a decisão de vendê-lo ao Real Madrid antes de completar 18 anos, com menos de 80 jogos como profissional, para o clube com o maior nível de exigência do futebol mundial.

O Real Madrid, por sua vez, não comprou Endrick para usá-lo imediatamente. Comprou para tê-lo. Num elenco com Vinicius Júnior, Mbappé e Rodrygo, o espaço para um atacante de 18 anos sem rodagem é praticamente zero. O empréstimo ao Lyon foi a consequência óbvia de uma sequência de decisões que colocaram o jogador num lugar para o qual ele ainda não estava pronto.

O Palmeiras recebeu parte do valor acordado. O Real Madrid ficou com os direitos econômicos. Endrick ficou com a pressão de justificar uma transferência histórica aos 18 anos num clube estrangeiro onde não domina o idioma e não tem ritmo de jogo.

A pergunta que ninguém faz: isso é bom para Endrick?

O que o futebol europeu faz diferente

Lamine Yamal completou 17 anos em 2024 jogando como titular absoluto do Barcelona. Mas o Barça não o vendeu. Blindou o contrato, aumentou a multa rescisória e construiu o time em volta dele. Xavi Simons ficou no PSV até os 20 anos desenvolvendo consistência antes de ir ao RB Leipzig. Florian Wirtz ficou no Bayer Leverkusen até os 21 anos, ganhou o campeonato alemão invicto com Xabi Alonso, e só então foi para o Manchester City por 150 milhões de euros como jogador formado, não como promessa.

O futebol europeu aprendeu que o valor de um jogador formado é exponencialmente maior do que o de uma promessa. O futebol brasileiro ainda opera pela lógica inversa: vender cedo, antes que o jogador se machuque, antes que o mercado esfrie, antes que apareça uma razão para esperar.

O Brasileirão perde o que poderia ser sua maior vitrine

Em 2026, cinco jovens do Brasileirão já têm passagem marcada para a Europa no meio do ano. Cauan Barros, Lucas Ronier, Pedro Morisco, Breno Bidon, Gabriel Bontempo. Alguns com menos de 50 jogos profissionais. Alguns ainda tentando se firmar como titular do próprio clube.

O Brasileirão poderia ser o campeonato onde o mundo assiste ao melhor futebol jovem se desenvolver. Poderia ser o argumento para que a transmissão internacional valha mais, para que o produto brasileiro seja reconhecido como mais do que um celeiro. Mas para isso precisaria de jogadores que ficassem tempo suficiente para criar identidade com o clube e o torneio.

A pergunta não é se os clubes deveriam vender. Precisam vender, a realidade financeira impõe isso. A pergunta é se existe algum mecanismo coletivo, regulatório ou cultural, que permita ao futebol brasileiro reter seus melhores talentos por mais dois ou três anos antes de exportá-los.

Hoje, não existe. E enquanto não existir, o Brasil vai continuar sendo a fábrica mais eficiente do futebol mundial. Produz demais. Guarda de menos. E torce para que os outros deem ao produto brasileiro o espaço que o próprio país não soube guardar.

Leia também no Armador: Ranking Armador: os 10 da rodada 10 e Everson: 34 defesas em 9 jogos.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo