Fora da Caixa 2026-04-06 3 min de leitura

Neymar na Copa 2026 seria injusto com os outros 25

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Carlo Ancelotti disse algo que merece ser repetido em voz alta: o craque pode ir ao Mundial, mas também pode não ir se não estiver 100% fisicamente. Parece razoável. Parece até elegante. O problema é o que essa frase esconde: existe um critério diferente funcionando para um único atleta. E isso é injusto com os outros 25 jogadores que vão à Copa do Mundo 2026.

O que os números dizem sobre a temporada de Neymar

Neymar jogou cinco das 17 partidas do Santos em 2026. Titular em quatro. Três gols e duas assistências. Esses são os números de um jogador que ainda não está pronto para a demanda que uma Copa do Mundo exige. Para comparar: qualquer meia-atacante disputando uma vaga na seleção brasileira precisa mostrar regularidade, volume e consistência ao longo de meses. O camisa 10 está longe disso.

A situação ficou ainda mais grave quando Ancelotti viajou pessoalmente a Mirassol para ver o Santos jogar. O técnico italiano foi ao interior do estado para analisar o craque in loco, conferir sua forma física, observar seu movimento sem bola, sua intensidade. O resultado: o jogador nem foi ao estádio. O Santos informou que o camisa 10 foi poupado por controle de carga. Ancelotti assistiu ao jogo sem ver o atleta que foi ver. Isso foi muito mal visto dentro da CBF, segundo pessoas próximas à cúpula da entidade.

O critério diferenciado que ninguém quer nomear

O problema não é a história do atleta. O problema é o que a possibilidade de Neymar na Copa 2026 representa para o restante do grupo. Se o critério anunciado pelo técnico é estar 100% fisicamente, então qualquer jogador que passe por recuperação lenta, que salte partidas por controle de carga, que não mostre consistência no clube até maio, está automaticamente fora da lista. Qualquer um, exceto o camisa 10 do Santos.

Ancelotti já admitiu que avalia o atacante por uma lógica diferente. A eventual convocação não vai depender de uma pré-lista progressiva, nem do volume de jogos acumulados, nem da regularidade semanal exigida de outros atletas. Vai depender de um julgamento subjetivo, de uma aposta emocional, de um peso histórico que distorce qualquer análise técnica honesta.

Isso não é gestão esportiva. É exceção. E exceção, dentro de um vestiário que vai disputar uma Copa do Mundo, corrói coesão. A reportagem do Armador sobre bastidores de poder nos clubes brasileiros mostrou como critérios opacos destroem grupos por dentro. O mesmo vale para seleções.

O Brasil não precisa de nostalgia, precisa de preparo

A seleção tem Vinicius Junior, Rodrygo, Endrick, Raphinha e uma geração que não depende de nenhum nome do passado para competir pelo título. O Brasil de Ancelotti já mostrou equilíbrio tático e profundidade de elenco. Levar o craque a 60% para uma Copa do Mundo é um risco que não beneficia o time. Beneficia o símbolo.

A questão não é se o jogador merece ir ao Mundial. A questão é se convocá-lo nas condições atuais é a decisão certa para o Brasil ganhar o hexacampeonato. Como aponta análise da ESPN, as dúvidas que restam são poucas, mas essa é a que mais pesa.

Se até maio o camisa 10 virar o jogo, jogar com regularidade, mostrar preparo físico real, a conversa muda. Mas se a convocação vier como prêmio por quem ele foi, e não por quem ele é em abril e maio de 2026, Ancelotti vai precisar olhar nos olhos dos outros 25 e explicar por que o critério mudou. Esse é o debate que a imprensa brasileira está evitando. O Portal Armador não evita.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo