Neymar tem 34 anos. Voltou de cirurgia no menisco. Deu uma assistência em 45 minutos numa vitória por 6 a 0 sobre o Velo Clube. E disse que "dezembro pode ser o último mês".
Parte do Brasil está em festa. Parte está em espera. E uma parte bem menor está fazendo a pergunta que precisa ser feita: o que exatamente Neymar ainda tem para oferecer à seleção?
Não é uma pergunta cruel. É a única pergunta honesta.
O que os dados dizem que o amor não deixa ver
Neymar disputou as últimas duas Copas do Mundo chegando de lesão. Em 2018, voltou de fratura no quinto metatarso. Em 2022, rompeu ligamentos do tornozelo na estreia contra a Sérvia e voltou nas quartas de final. O Brasil foi eliminado nos dois torneios.
Não estou dizendo que é culpa de Neymar. Estou dizendo que ele não estava 100% em nenhuma das duas. Que um jogador que chega à Copa depois de meses de recuperação não é o mesmo jogador que treinou o ciclo inteiro. E que a seleção construiu planos em cima da presença de alguém que chegava sempre pela metade.
Agora vai ser diferente? O argumento é que sim. Que ele voltou cedo, que está se recuperando no Santos, que a Copa é em junho e ele tem tempo. O problema é que já ouvimos esse argumento antes. Em 2018. Em 2022.
O que o Santos não é mais
Neymar voltou para o clube que o formou. É uma história bonita. Mas o Santos que o formou e o Santos de 2026 são instituições diferentes.
O Santos de 2011 tinha Ganso. Tinha André. Tinha David. Tinha um sistema. Neymar era o protagonista de uma equipe que jogava futebol. Em 2026, o Santos é um clube que acabou de subir da Série B, com um elenco em fase de reconstrução, num campeonato em que os grandes do eixo Rio-São Paulo-Minas dominam com vantagem estrutural considerável.
Jogar pelo Santos 2026 não é o mesmo estímulo competitivo que jogar pelo PSG ou pelo Al-Hilal. A qualidade dos adversários é diferente. A intensidade é diferente. Os dados de desenvolvimento de forma física numa competição de nível médio não são os mesmos de uma grande liga europeia.
Neymar está se preparando para a Copa do Mundo jogando em condições muito abaixo do que o torneio vai exigir dele.
Ancelotti e a questão sem resposta
Carlo Ancelotti disse que Neymar ainda pode ser convocado se chegar em condições. A afirmação é cautelosa e correta. Ninguém vai cortar Neymar da Copa de forma preventiva.
Mas a pergunta real não é se Neymar vai ser convocado. É o que ele vai fazer num time que já tem Vini Jr., Rodrygo e Raphinha como titulares estabelecidos. Onde Neymar entra nesse sistema? Como Ancelotti concilia o ego e a necessidade de protagonismo de Neymar com um sistema que precisa de coletivo?
O maior jogador brasileiro do mundo já some quando a seleção não constrói em cima dele. Adicionar Neymar numa Copa onde ele precisaria aceitar um papel secundário é um exercício que nunca funcionou historicamente.
Em 2014, a Copa foi construída em cima de Neymar. Ele se machucou, e o Brasil perdeu de 7 a 1 para a Alemanha.
Em 2022, tentou-se construir um coletivo com Neymar como referência. Ele se machucou na estreia, voltou nas quartas, e o Brasil foi eliminado por Croácia nos pênaltis.
O padrão é consistente. E ninguém quer olhar para ele.
A aposentadoria que o Brasil precisa deixar acontecer
Neymar disse que "dezembro pode ser o último mês". Se for, é uma decisão de grandeza.
Mas o risco real é que a narrativa da aposentadoria vire pressão no sentido oposto. Que o Brasil queira dar a ele uma Copa de despedida. Que Ancelotti convoque por respeito à história, não por avaliação fria da condição física. Que o jogador entre em campo pela metade e o time sofra por isso.
Neymar foi, durante uma década, o melhor jogador do mundo. Tem recordes que ficam. Tem jogadas que ninguém esquece. O gol olímpico contra Japão em 2016. O hat-trick contra o Haiti. As atuações nas Eliminatórias. É história viva do futebol brasileiro.
Mas história não marca gol. E o Brasil chega à Copa com 52% de aproveitamento e não tem margem para erro.
Se Neymar chegar em forma, é um trunfo. Se chegar pela metade, é um problema.
A questão é que o Brasil tem dificuldade histórica para fazer essa distinção quando se trata dele.