Neymar, o árbitro e o que o futebol ainda protege
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Fora da Caixa 2026-04-05 4 min de leitura

Neymar, o árbitro e o que o futebol ainda protege

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Neymar chutou a bola, assistiu dois gols e ajudou o Santos a vencer o Remo por 2 a 0. A vitória era necessária. O clube levava mais de um mês sem ganhar. Mas ninguém estava falando do placar na manhã seguinte. Todo mundo estava falando de três palavras: "acordou de chico".

Após o apito final, Neymar reclamou do árbitro Sávio Pereira Sampaio e escolheu uma expressão para descrever o comportamento dele. Uma expressão antiga, conhecida, e que todo brasileiro de certa faixa etária já ouviu alguma vez. Uma expressão que usa o ciclo menstrual da mulher como sinônimo de mau humor, instabilidade, falta de controle. Uma expressão machista.

O Brasil inteiro parou para debater se era gíria. Ninguém queria falar do que realmente importa.

O que Neymar disse, e o que o futebol decidiu ignorar

A frase completa foi gravada e circulou: "Acho que acordou meio, como se diz, de chico e veio assim pro jogo. Não podia nem falar com ele que te ignorava, virava as costas."

A reação de parte da imprensa foi imediata: classificar como gíria regional inofensiva. Uma jornalista ex-Globo foi além e disse que quem critica a declaração é "mal-amada e recalcada". O futebol, como sempre, encontrou a saída mais fácil: minimizar, relativizar, atacar quem aponta o problema.

Mas a expressão não é inocente. "De chico" é uma referência ao período menstrual feminino usada historicamente para desqualificar mulheres, associando sua biologia a irracionalidade. Usar isso para descrever o comportamento de um árbitro é reduzir o feminino a patologia. É exatamente isso. Não tem outra leitura.

O que ninguém quer falar: o futebol brasileiro carrega esse vocabulário há décadas, e a polêmica de Neymar não é um acidente. É um sintoma.

O futebol como território, e o que esse vocabulário revela

Árbitras femininas no Brasil vivem um paradoxo cruel. Avançaram tecnicamente, profissionalmente, chegaram à elite das competições. E ainda enfrentam um ambiente que usa o feminino como insulto.

Quando um jogador usa "acordou de chico" para criticar um árbitro, não importa que o árbitro seja homem. A lógica do insulto é feminina. O alvo real é a mulher, usada como metáfora de tudo que é irracional, instável, errado. O árbitro é ruim porque, na lógica da expressão, se comportou como mulher.

Esse é o machismo estrutural do futebol. Ele não precisa de cartaz. Ele vive na linguagem.

A mesma semana que Neymar usou "de chico" foi a mesma semana em que a CBF gastou R$ 195 milhões na "profissionalização" da arbitragem. Dinheiro para equipamentos, tecnologia, formação. Nada para mudar a cultura de quem joga.

A punição vai acontecer, e vai ser simbólica

O STJD pode abrir inquérito. Os artigos 243-G e 258 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva preveem punições que vão de multa a suspensão de cinco a dez partidas. Provavelmente vai dar em multa. Talvez uma suspensão curta. Neymar vai pagar, reconhecer o erro em nota de assessoria, e o assunto vai morrer.

A verdade é que punição sem educação não muda cultura. O futebol brasileiro tem um problema crônico com linguagem e com o que essa linguagem normaliza. Não é só Neymar. É o ambiente que ensina que "de chico" é vocabulário aceitável desde que se marque gols e venda camisa.

O curioso, e revelador, é que Neymar postou um versículo bíblico e fotos da família no dia seguinte. Sem pedir desculpas. Sem nomear o erro. A estratégia de comunicação de crise mais velha do esporte: apareça com a família, deixe o tempo trabalhar. Funcionou antes. Vai funcionar de novo.

O que o Brasil escolhe ver, e o que isso diz sobre nós

Há uma questão mais profunda aqui que o futebol não está preparado para enfrentar: Neymar é o maior jogador brasileiro da última geração. É o rosto do Santos no retorno ao clube que o revelou. É o personagem principal de qualquer narrativa do futebol nacional antes da Copa do Mundo de 2026.

E ele usou, ao vivo, uma expressão machista para insultar um árbitro. E o Brasil debateu se era gíria.

Esse debate, por si só, já é a resposta. O futebol brasileiro sempre soube o que estava protegendo. E não é a mulher. É o jogador. É o espetáculo. É a audiência que prefere não ser desconfortada.

Árbitras continuarão sendo formadas. Algumas chegarão à elite. Serão alvo de insultos que usam o feminino como categoria inferior. O ciclo vai se repetir. E a imprensa vai chamar de "gíria regional" da próxima vez também.

A verdade é simples e ninguém quer dizer: o futebol protege quem produz. E enquanto Neymar produzir, o futebol vai encontrar uma forma de chamar machismo de gíria.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo