Meia-esquerda: a posição que o futebol brasileiro perdeu
Wikimedia Commons / Agência Brasil
Prancheta 2026-04-07 4 min de leitura

Meia-esquerda: a posição que o futebol brasileiro perdeu

Rafael Teixeira
Jornalista Esportivo

O Brasil produziu Rivaldo, Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Zico como meias com perfil de 10 clássico em um período de quatro décadas. Em 2026, o Brasileirão tem em média um meia com esse perfil a cada três times. A posição não desapareceu do futebol. Desapareceu do futebol brasileiro.

O dado de 2026: entre os 20 times da Série A, apenas sete têm um meia identificado como número 10 no sistema tático. Os outros treze jogam com meia-centro de marcação, meia box-to-box ou com sistema sem posição de 10 definida. A proporção é de 35% dos times com meia-dez. Em 2014, era de 75%.

O que foi o meia-dez brasileiro

O meia-dez brasileiro clássico tinha função clara: receber entre as linhas, criar com passe ou condução e definir. A posição exigia técnica de recepção em espaço reduzido, visão de jogo para enxergar a jogada antes de receber e qualidade de passe final.

Zico foi o modelo da geração de 1970 a 1994. Rivaldo foi o modelo de 1994 a 2002. Ronaldinho Gaúcho foi o modelo de 2002 a 2010. Kaká foi o modelo de 2002 a 2014. Em 2014, o Brasil entrou na Copa sem um meia-dez de nível mundial. Perdeu para a Alemanha por 7 a 1. A relação de causa e efeito não é direta, mas o dado está lá.

Por que a posição desapareceu

A resposta mais comum no debate brasileiro é a mudança do futebol mundial: o 10 clássico desapareceu globalmente. O argumento é parcialmente verdadeiro. No futebol de elite europeu, o meia com função exclusiva de criação entre as linhas também se tornou menos comum. Mas não desapareceu.

Pedri joga como 10 no Barcelona. Bellingham é o 10 do Real Madrid. Kevin De Bruyne foi o 10 do City por anos. Zidane foi o 10 clássico da última grande geração francesa. O 10 adaptou sua função mas não desapareceu. No futebol europeu, ele passou a ter responsabilidade defensiva, mas manteve o papel de criador entre as linhas.

O Brasil exportou os últimos três meias com esse perfil: Ganso, que foi para a Europa mas ficou na Série A europeia periférica; Philippe Coutinho, que foi ao Barcelona mas nunca se consolidou; e Lucas Paquetá, que joga no West Ham e tem desempenho irregular. O Brasil não formou o próximo da fila.

O dado da formação

O dado que explica melhor o problema está na formação de base. Nos últimos dez anos, os clubes brasileiros reduziram o tempo dedicado ao treinamento de meias criativos nas categorias de base. A preferência por jogadores físicos, atléticos e com capacidade de pressão alta levou as categorias a formar volantes e box-to-box em vez de meias criativos.

O dado de exportação confirma: entre os brasileiros que foram para a Europa nos últimos cinco anos, o maior volume é de laterais e atacantes extremos. Meias criativos representam 8% das exportações. Atacantes extremos representam 41%. Zagueiros representam 23%. O mercado europeu pede mais extremos que meias. O Brasil formou mais extremos que meias.

Quem tem o perfil em 2026

No Brasileirão 2026, os meias com perfil mais próximo do 10 clássico são Raphael Veiga no Palmeiras, Praxedes no Bragantino e Ganso no Fluminense. Os três têm função de criação entre as linhas como atribuição principal.

O dado de Veiga é o mais expressivo: 0,38 participações em gol por 90 minutos, 73,1% de taxa de passes progressivos completados e 3,2 conduções progressivas por jogo. É o conjunto de dados de um meia criativo funcional. O problema é o volume do campeonato: três meias com esse perfil em vinte times é escassez.

Na seleção brasileira, a ausência é mais sentida. Neymar, que é um meia-atacante com função de 10 quando em forma, não está disponível com regularidade. Gerson tem função de meia box-to-box. Bruno Guimarães é volante. Lucas Paquetá tem os melhores números individuais para o perfil de 10, mas vive irregular no West Ham. A seleção de Ancelotti não tem um meia-dez claro.

O paradoxo

O paradoxo é que o Brasil ainda produz jogadores com o perfil de 10, mas os perde cedo para a Europa. Os que ficam no Brasil têm nível inferior. Os que vão para a Europa raramente chegam ao nível dos melhores.

Paquetá é o caso mais emblemático. No Flamengo, era o melhor 10 do Brasil. No West Ham, é um meia irregular no meio de uma liga física e intensa. O perfil do meia-dez brasileiro, técnico e criativo, não se adapta bem ao futebol inglês. Se adaptasse, seria o melhor 10 do West Ham. Não é.

A Copa 2026 vai evidenciar o problema. O Brasil vai encontrar pela frente a França com Zidane, digo, com Dembélé como meia avançado. A Espanha com Pedri como organizador entre as linhas. A Argentina com Messi como 10 clássico aos 38 anos. O Brasil não tem ninguém nessa função.

Diagnóstico

O meia-dez desapareceu do futebol brasileiro por uma combinação de exportação precoce, formação focada em perfis físicos e ausência de paciência dos clubes para desenvolver meias criativos. O processo levou dez anos. A recuperação vai levar tempo similar. A Copa 2026 vai acontecer antes da solução chegar.

Para mais sobre o perfil dos meias no futebol brasileiro, leia a análise de o meia box-to-box e o desaparecimento das posições fixas e a cobertura da seleção de Ancelotti para a Copa.

Rafael Teixeira Jornalista Esportivo

Rafael Teixeira tem 34 anos e nasceu em Goiânia. Formado em Educação Física pela UFG, trabalhou como analista de performance no Goiás EC entre 2018 e 2022, onde participou do acesso à Série A em 2018.... Ler perfil completo