O Manchester City foi condenado por 115 violacoes das regras financeiras do futebol ingles. O processo durou anos. A decisao ainda não foi totalmente cumprida. E o City continuou vencendo campeonatos durante todo esse periodo.
O futebol europeu tem um problema serio com dinheiro, e o problema e que ninguem sabe exatamente onde esta o limite entre investimento legitimo e distorcao competitiva.
O que a era do petrodinheiro fez ao futebol
A compra do Manchester City pelos Emirados Arabes em 2008 mudou o futebol ingles de forma permanente. O PSG pelos qataris em 2011 mudou o futebol frances e ameacou mudar o europeu. O Newcastle pelos sauditas em 2021 criou outro polo de investimento massivo.
Em teoria, dinheiro deveria ser neutro, mais investimento, melhor futebol, mais competitividade. Na pratica, quando o investimento e desproporcionalmente maior do que qualquer competidor pode igualar, a competicao deixa de ser esportiva e se torna financeira.
O City de Pep Guardiola e extraordinario do ponto de vista tecnico, joga futebol de alta qualidade com investimento de alta qualidade. O problema não e o City. E o modelo que o City estabeleceu: clube de cidade media com investidor estatal praticamente ilimitado, competindo com clubes de historia centenaria que dependem de receita de mercado.
O que o fair play financeiro tentou fazer e não conseguiu
O UEFA Financial Fair Play foi criado em 2010 com objetivo declarado de garantir que clubes não gastem mais do que ganham. O objetivo era correto. A execucao foi consistentemente insuficiente.
O PSG contratou Neymar por 222 milhoes de euros em 2017. Os numeros não fechavam pelo FFP convencional. A UEFA negociou, investigou, aplicou sancion minor, deixou passar. O Neymar foi e voltou. O ciclo continua.
O problema do FFP e de execucao, a UEFA não tem poder coercitivo real sobre os clubes. Pode banir da Champions. Pode multar. Mas club que tem investidor estatal por tras não sente multa e não tem medo de exclusao temporaria de Champions.
O que o modelo brasileiro tem de diferente
O Brasileirão não tem petrodinheiro, ainda. Tem o modelo SAF, com investidores nacionais e internacionais comprando clubes. Tem o Botafogo com John Textor. Tem o Vasco com a situacao conturbada da 777 Partners.
O Brasil ainda esta na fase de descobrir como o dinheiro estrangeiro muda o campeonato local. O que a Europa ja aprendeu: dinheiro resolve problemas pontuais e cria problemas estruturais maiores se não vier com projeto.
O que o futebol precisa para sobreviver como esporte
Limite real de gasto. Nao proporcional a receita, limite absoluto ou limite relativo com mecanismo de redistribuicao. A NFL americana funciona com teto salarial e draft que nivelamm competitividade. O futebol europeu rejeita isso porque os clubes maiores não tem interesse em nivelar.
Transparencia nos investimentos. Saber quem e o investidor real por tras de cada fundo. Impedir que estados soberanos utilizem clubes de futebol como instrumento de soft power sem as mesmas regras que se aplicam a investidores privados.
O futebol e o esporte mais assistido do planeta. E mais um negocio do que um esporte, a esta altura, não ha como fingir que as duas coisas sao separaveis. A questao e se o negocio vai destruir o esporte ou se o esporte vai sobreviver ao negocio. Em 2026, ainda não esta claro qual dos dois vence.