Manchester City comprou o futebol. E agora?
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Fora da Caixa 2026-04-07 3 min de leitura

Manchester City comprou o futebol. E agora?

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O Manchester City tem 115 acusacoes de violacao de fair play financeiro pendentes. Continua jogando. Continua vendendo. Continua sendo um dos clubes mais valiosos do mundo. E o futebol europeu continua fingindo que vai resolver isso.

Nao vai. Porque o City e grande demais para punir. E porque os mesmos que fariam a punicao tem interesse em manter o sistema que o City representa funcionando.

Vamos combinar: o fair play financeiro nunca funcionou da forma que prometeu. Foi criado para impedir que clubes ricos comprassem todos os titulos. O resultado e que clubes ricos -- City, PSG, Newcastle agora -- encontraram estruturas de patrocinio que contornam as regras. As que nao encontraram -- Juventus, por exemplo -- foram punidas. O sistema pune quem nao aprendeu a jogar o jogo, nao quem mais joga.

O que o City representa para o futebol

O Manchester City da era dos Emirados e o experimento mais bem-sucedido de transformacao de clube por capital externo ilimitado. Em quinze anos, o City passou de clube medio da Premier League para o mais dominante da Europa. Oito titulos ingleses. Uma Champions League. Dominio tatical sob Guardiola que redefiniu o que e possivel no futebol moderno.

O problema nao e o City ter sido bom. O problema e o custo para o futebol em geral: quando um clube tem acesso a capital que outros nao podem nem imaginar, a competicao deixa de ser sobre quem joga melhor e passa a ser sobre quem tem mais dinheiro para comprar quem joga melhor.

Haaland marcou 22 gols na Premier League 2026 mas o City nao disputa o titulo. Isso e dado importante: ate o capital ilimitado tem limites. Guardiola saiu. O successor ainda esta construindo. E possivel que o City seja exemplo de que dinheiro compra boas temporadas mas nao garante dominancia eterna. Isso seria bem-vindo -- mas nao resolve o problema estrutural.

O que o futebol precisa decidir

O futebol europeu precisa decidir se quer competicao real ou entretenimento com aparencia de competicao. Sao coisas diferentes. A NBA americana escolheu entretenimento com aparencia de competicao -- salary cap, draft, mecanismos que redistribuem talento. Clubes grandes nao acumulam todos os jogadores indefinidamente. Funciona para o produto americano.

O futebol europeu escolheu historicamente competicao real -- sem teto salarial, sem draft, mercado livre. O resultado e que clubes com mais dinheiro dominam. E quando a diferenca de capital entre os melhores e os demais e a de um fundo soberano, a competicao desaparece.

A solucao nao e simples. Salary cap europeu exige acordo de todos os campeonatos -- impossivel politicamente. Restricao a investimento externo exige definicao do que e aceitavel -- nao ha consenso. Punir o City agora significaria punir depois os clubes que os que punem agora vao querer comprar amanha.

O que o Brasil pode aprender com isso

O Brasil tem a SAF -- Sociedade Anonima do Futebol. E um mecanismo para trazer capital privado para clubes tradicionais. O Vasco tentou e o acordo com a 777 Partners nao se concretizou. O Botafogo teve sucesso com John Textor. O modelo funciona quando o capital vem com projeto -- e falha quando vem so com dinheiro.

O City mostra o que acontece quando capital sem limite entra no futebol sem regulacao adequada. O Brasil, antes de expandir o modelo SAF, deveria discutir: qual e o limite de capital externo aceitavel? Qual e a protecao para clubes menores? Qual e o mecanismo para garantir competicao real no Brasileirao?

O futebol europeu nao respondeu essa pergunta e agora tem o City. O Brasil ainda tem tempo para responder antes que o problema chegue aqui. Se quiser.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo