Laterais ofensivos: 23% das assistências em 2026
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Leitura Tatica 2026-04-06 5 min de leitura

Laterais ofensivos: 23% das assistências em 2026

Rafael Teixeira
Jornalista Esportivo

Os laterais ofensivos respondem por 23% das assistências do Brasileirão 2026 nas primeiras dez rodadas. O número representa o maior índice desde 2019, quando o modelo de lateral como criador começou a se consolidar no futebol brasileiro. Em 2026, oito dos vinte times da competição usam pelo menos um lateral com perfil ofensivo declarado na formação titular.

O dado muda a leitura de como o gol é construído no Brasileirão. A assistência do lateral não vem apenas do cruzamento tradicional pela linha de fundo. Em 2026, 61% das assistências de laterais são passes de ruptura no corredor, passe entre a linha de meio-campo e a linha defensiva adversária, ou combinações com o ala antes da área. O lateral que avança, cruza e espera o centroavante cabeceio existe, mas não é mais o modelo dominante.

O lateral como terceiro homem no corredor

O padrão ofensivo mais frequente entre os laterais do Brasileirão 2026 é o que os analistas chamam de terceiro homem no corredor. O ala sobe pela faixa, o lateral avança por dentro em diagonal e recebe o passe de volta quando o ala atrai o marcador. De lá, o lateral tem dois caminhos: o passe em profundidade para o ala que continuou o movimento, ou a condução para o espaço aberto no corredor interno.

O Botafogo usa esse padrão com Cuiabano à esquerda. O venezuelano sobe em diagonal quando Savarino puxa o lateral adversário para a faixa, e recebe o passe de volta em posição intermediária. Nas últimas seis rodadas, Cuiabano completou 2,3 passes progressivos por jogo a partir dessa movimentação. O número coloca o lateral do Botafogo entre os cinco mais participativos do campeonato na fase de criação.

O Palmeiras replica o modelo pelo lado direito com Marcos Rocha. A diferença é que o lateral alviverde tem perfil mais conservador, então a movimentação ofensiva é acionada de forma mais seletiva, em geral quando o Palmeiras já controla a posse e o adversário recua o bloco. Marcos Rocha tem 1,7 passes progressivos por jogo, abaixo da média dos laterais ofensivos, mas com maior consistência defensiva.

Guilherme Arana: o dado que separa do restante

O lateral esquerdo do Atlético-MG é o jogador da posição com maior influência ofensiva do Brasileirão 2026. Guilherme Arana tem 3 assistências em dez rodadas, média de 2,8 cruzamentos certos por jogo e 1,9 passes de ruptura completados. Nenhum outro lateral chega a 2 assistências no período.

O que diferencia Arana não é a frequência com que avança, mas a qualidade da decisão quando está no corredor. O lateral do Atlético tem 68% de acerto nos passes para a área, acima da média de 54% dos laterais ofensivos do Brasileirão. A diferença é técnica: Arana lê a posição do atacante antes de cruzar, em vez de cruzar e esperar que alguém apareça.

O Atlético-MG como sistema se beneficia diretamente. O corredor esquerdo do Galo, com Arana subindo e Bernard fechando para o centro, cria desequilíbrio estrutural que força o adversário a tomar decisão de marcação: quem acompanha o lateral que avançou? Se o lateral direito adversário fecha, abre o corredor para Bernard. Se o meia recua para cobrir Arana, abre o espaço entre as linhas para o pivô do Atlético.

O risco defensivo do lateral ofensivo

O modelo tem custo. Quando o lateral avança e perde a bola em posição adiantada, o corredor fica exposto para a transição adversária. Os times mais vulneráveis a esse padrão no Brasileirão 2026 são justamente os que usam laterais com perfil muito ofensivo sem ajuste defensivo do ala correspondente.

O Flamengo sofreu com isso nas primeiras rodadas. Com Viña subindo constantemente à esquerda, o corredor direito adversário ficava livre para a transição. O Bragantino explorou esse espaço no 3 a 0 da rodada 9: dois dos três gols saíram de transições pelo lado em que o lateral rubro-negro estava adiantado.

A solução que os times encontraram é o ajuste do ala. Quando o lateral sobe, o ala do mesmo lado recua para cobrir o espaço. O sistema exige sincronia de movimentação que não se improvisa: precisa de treino e repetição. Times com lateral ofensivo mas sem ala que cobre têm média de 1,4 gols sofridos em transição por jogo. Times com o ajuste funcionando têm 0,7.

O dado de contexto: quando o lateral decide o jogo

Nas dez primeiras rodadas do Brasileirão 2026, 14 gols foram precedidos por participação direta de lateral ofensivo no último terço. Não apenas a assistência final, mas a progressão que criou a situação. O lateral que conduziu pelo corredor, abriu o espaço e passou para o meia chegar em condições de finalizar.

Esse número é 34% maior do que nas dez primeiras rodadas de 2024. A tendência não é exclusiva do Brasil, mas o Brasileirão absorveu o modelo com velocidade. O ataque coletivo sem dependência de artilheiro que define 2026 passa em grande parte pelo lateral que avança como terceiro atacante no corredor.

Diagnóstico

O lateral ofensivo não é novidade no futebol brasileiro, mas o nível de participação direta na criação em 2026 é inédito na última década. Vinte e três por cento das assistências saindo da posição, com padrões táticos claros e dados que separam os modelos funcionais dos que expõem o time na transição adversária.

O risco existe, e o Flamengo pagou o preço no clássico contra o Bragantino. Mas os times que resolveram o ajuste defensivo do ala têm na movimentação do lateral um recurso ofensivo de alta eficiência. Os primeiros 15 minutos do Brasileirão 2026 mostram que o gol precoce quase sempre vem de desequilíbrio no corredor, e o lateral ofensivo é o agente mais frequente desse desequilíbrio.

Rafael Teixeira Jornalista Esportivo

Rafael Teixeira tem 34 anos e nasceu em Goiânia. Formado em Educação Física pela UFG, trabalhou como analista de performance no Goiás EC entre 2018 e 2022, onde participou do acesso à Série A em 2018.... Ler perfil completo