Gabi Portilho e a melhor. O Brasil nao sabe.
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Ela em Campo 2026-04-07 3 min de leitura

Gabi Portilho e a melhor. O Brasil nao sabe.

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Gabi Portilho marcou mais de 20 gols nas ultimas tres temporadas pelo Corinthians. Ganhou titulos. Recebeu premios de melhor do campeonato. E uma das melhores atacantes da America do Sul. Pergunte para dez pessoas na rua quem e ela. Sete nao vao saber.

O problema nao e ela. E um pais que tem a melhor atacante da America do Sul e nao sabe o nome dela.

O futebol feminino brasileiro tem atletas de primeiro nivel. Gabi Portilho no Corinthians. Ary Borges nos Estados Unidos. Adriana, Debinha, Kerolin. Jogadoras que enfrentam as melhores do mundo toda semana em ligas de alto nivel. O nivel tecnico existe. A visibilidade nao acompanha.

O que significa ser a melhor em um campeonato invisivel

O Brasileirao Feminino 2026 comecou com Palmeiras batendo o Corinthians de Emily Lima por 3 a 2 num classico com nivel tecnico real. Gabi Portilho foi o diferencial. Mas quantas pessoas assistiram ao jogo? Quantas leram a analise depois? Quantas viram o resumo dos lances?

O Corinthians masculino perde um jogo e a repercussao dura uma semana. O Corinthians feminino ganha um classico e a repercussao dura um dia nas paginas especializadas. Essa e a proporcao real de como o Brasil trata os dois produtos. E a proporcao e injusta -- nao so para as jogadoras, mas para o futebol como negocio.

Quando o Corinthians masculino tem um jogador de nivel de Gabi Portilho no feminino, o debate e sobre Bola de Ouro, sobre transferencia para a Europa, sobre convocacao para Copa. Para Gabi Portilho: perguntar para dez pessoas na rua. Sete nao saberao o nome.

O que cobertura adequada faria

Se o Brasileirao Feminino recebesse a cobertura proporcional ao nivel de jogo -- nao ao mesmo nivel do masculino, mas proporcional ao que apresenta --, Gabi Portilho seria conhecida. Seria patrocinada. Teria seguidores. Seria referencia para meninas que estao aprendendo a jogar futebol.

Esse efeito nao e trivial. Quando Marta se tornou visivel -- quando o Brasil passou a saber quem ela era --, meninas comecaramo a jogar futebol em escala diferente. O futebol feminino brasileiro tem hoje a base que tem porque Marta foi visivel o suficiente para inspirar uma geracao. Gabi Portilho pode fazer o mesmo por uma nova geracao. Mas so se alguem mostrar quem ela e.

A Copa 2027 muda tudo -- ou nao muda nada

O Brasil vai sediar a Copa do Mundo Feminina em 2027. Esse e o maior evento do calendario feminino. Se o Brasil chegar em 2027 sem ter construido base de torcedores, sem ter criado identificacao com a selecao, sem ter feito do futebol feminino um produto que as pessoas acompanham -- o torneio vai passar com estadios vazios e repercussao de evento cultural, nao esportivo.

A janela para mudar isso esta aberta agora. Em 2026, um ano antes da Copa. E preciso que transmissoras, CBF, clubes e imprensa decidam que o futebol feminino e produto prioritario -- nao complemento generoso ao masculino.

Gabi Portilho, Ary Borges, Adriana, Kerolin, Debinha. Essas sao as estrelas que o Brasil tem. A questao de visibilidade dessas jogadoras nao e questao de justica social -- e questao de negocio. Times femininos com estrelas conhecidas enchem estadio. Campeonatos com marcas conhecidas vendem direito de transmissao. O produto existe. Falta alguem decidi-lo vender.

Gabi Portilho e a melhor. O Brasil nao sabe. E isso e um problema que o Brasil criou -- e que o Brasil pode resolver se quiser.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo