Quando alguem elogia o futebol feminino brasileiro usando a expressao apesar das dificuldades, eu ja sei que o resto da frase vai diminuir o que deveria estar celebrando.
O futebol feminino não precisa de condescendencia. Precisa de investimento, cobertura e respeito como produto esportivo que ja e. E um produto que existe, que tem atletas de nivel mundial, que tem torcida crescente, que tem potencial de mercado que o Brasil ainda não soube explorar.
Gabi Portilho e a melhor jogadora do Brasil. Provavelmente a melhor jogadora da America do Sul neste momento. Você sabe o nome do clube em que ela joga? Sabe quantos gols ela fez na temporada? Se a resposta for nao, o problema não e a jogadora. E o sistema que deveria estar mostrando ela para voce.
O classico que ninguem viu
Palmeiras bateu o Corinthians de Emily Lima por 3 a 2 na estreia do Brasileirão Feminino 2026. Foi um classico com qualidade tecnica, decisoes taticas interessantes e resultado em aberto ate o ultimo minuto. O publico no estadio foi insatisfatorio para um jogo desse nivel. A cobertura na midia foi um fragmento do que o jogo masculino teria recebido.
Isso não e acidente. E escolha. E uma escolha que custa caro -- não para quem faz a escolha, mas para o produto em si. Quando o futebol feminino não tem cobertura adequada, ele não ganha publico. Quando não ganha publico, o argumento contra investimento continua sendo a falta de publico. E um circulo vicioso que so quebra com aposta consciente no produto.
A Copa 2027 esta chegando. O Brasil não esta pronto.
O Brasil vai sediar a Copa do Mundo Feminina em 2027. Isso deveria ser o gatilho para uma transformacao estrutural no tratamento que o futebol feminino recebe no pais. Nao esta sendo.
Arthur Elias tem um elenco com jogadoras de nivel mundial: Ary Borges no Angel City FC, Adriana, Kerolin no North Carolina Courage. Sao atletas que jogam nas melhores ligas do mundo, que enfrentam as melhores jogadoras do planeta toda semana. Mas o Brasil ainda trata sua seleção feminina como atracao secundaria em um esporte que e principal.
Em 2027, o Brasil vai receber os melhores times do mundo. Os torcedores que não acompanham o futebol feminino vao de repente querer entender do que se trata. Mas construir base de torcedores não acontece em um mes. Acontece ao longo de anos de cobertura, de transmissao, de presenca na grade dos canais, de jornalistas que cobrem o jogo com o mesmo rigor com que cobrem o masculino.
O que falta não e talento
O Brasil não tem problema de talento. Tem problema de estrutura. Clubes que investem seriamente no feminino sao a excecao, não a regra. Salarios que não refletem o nivel tecnico das jogadoras. Calendarios mal organizados. Transmissao irregular. Cobertura proporcional ao masculino, o que significa quasi inexistente.
Para comparar: a Espanha construiu em cinco anos uma seleção que ganhou a Copa do Mundo de 2023 com um modelo de desenvolvimento que combinou investimento de clubes como o Barcelona e Real Madrid no feminino com uma liga profissional estruturada. O Brasil tem o talento bruto. Falta o que vem com investimento: estrutura, desenvolvimento, continuidade.
Enquanto o Brasil espera o futebol feminino crescer sozinho, outros paises estao construindo o alicerce. Em 2027, vai ficar claro quem apostou e quem esperou. A preparacao para a Copa Feminina 2027 mostra um Brasil que ainda tem muito a construir.
A pergunta que ninguem faz
Quanto o Brasil perderia se o futebol feminino explodisse? Que interesses estao por tras da manutencao do status quo, onde o masculino concentra todo o dinheiro, toda a cobertura, toda a atencao?
Nao e teoria da conspiracao. E economia basica. O capital e finito. O tempo de transmissao e finito. O espaco editorial e finito. Toda vez que o feminino ganha espaco, ele tira espaco de algo que ja existia. E quem tem interesse em manter o que existia vai resistir a essa mudanca.
Mas o mercado ja comecou a falar mais alto que a resistencia. As torcidas estao crescendo. Os direitos de transmissao do feminino estao subindo globalmente. Marcas perceberam que o publico do futebol feminino e demograficamente interessante. O produto existe. O mercado existe.
O Brasil vai entrar nessa onde ou vai ficar olhando enquanto outros paises constroem o futuro? Em 2027, o mundo vem para ca. A resposta vai estar nos estadios -- cheios ou vazios. E essa escolha estamos fazendo agora, não em 2027.