Leitura Tática
Fluminense de Zubeldía: o 4-3-3 que colocou o time na vice-liderança do Brasileirão
## A ruptura com Diniz
O Fluminense de 2026 não é o time de Fernando Diniz. Luis Zubeldía, treinador argentino contratado após a saída do predecessor, escolheu uma abordagem tática diferente: saiu do futebol associativo com trocas de posição constantes de Diniz e adotou um 4-3-3 com funções mais definidas e posicionamento mais estático.
A mudança não agradou de imediato. Nas primeiras rodadas, a torcida do Fluminense reclamou do futebol mais direto e menos vistoso. Os resultados, porém, foram aparecendo. O time está na vice-liderança do Brasileirão 2026, 5 pontos atrás do Palmeiras, com a campanha mais consistente dos últimos dois anos.
## O 4-3-3 de Zubeldía
O sistema de Zubeldía usa Fábio no gol com Samuel Xavier e Renê nas laterais. A linha de três no meio tem Hércules como primeiro volante, Martinelli como segundo volante e Lucho Acosta como meia adiantado de criação.
Lucho Acosta é a peça mais influente do sistema. O meio-campista venezuelano opera entre as linhas com liberdade de circulação pelo lado esquerdo, criando sobreposições com o lateral Renê. Nas últimas 6 rodadas, Acosta registrou 7,8 passes chave por 90 minutos, o número mais alto entre meias do Brasileirão nessa janela.
O ataque tem Canobbio pela direita, Savarino pelo centro e John Kennedy pela esquerda. Savarino funciona como um falso 9: ele cai para receber e a função de profundidade fica com Canobbio e John Kennedy alternando entre chegar às costas da defesa.
## O diferencial defensivo
Zubeldía veio do São Paulo com reputação de treinador de organização defensiva, e o dado do Fluminense confirma: a equipe concedeu apenas 10 gols em 9 rodadas, média de 1,1 por jogo. É o segundo melhor aproveitamento defensivo do campeonato, atrás apenas do Palmeiras.
O mecanismo defensivo central é o bloco médio com os dois volantes cobrindo o corredor central. Hércules e Martinelli formam uma zona de cobertura de 12 metros de largura que torna o passe entre as linhas muito arriscado. As equipes adversárias que tentam progredir pelo centro do Fluminense são interceptadas em 61% das tentativas.
O lado mais vulnerável é o corredor direito quando Samuel Xavier avança. O lateral tem 3,4 cruzamentos por jogo, número que o posiciona como o mais ofensivo da liga na posição, mas que cria espaço nas suas costas. Times mais rápidos na esquerda, como São Paulo e Bahia, tentaram explorar esse espaço.
## Savarino: o centroavante que não finaliza
Um ponto de discussão tática no Fluminense é o aproveitamento de Savarino. O venezuelano é o atacante central do sistema, mas tem apenas 0,38 xG por 90 minutos, abaixo da média esperada para um centroavante titular do top 4 do Brasileirão.
O dado de Savarino que justifica seu papel não é a finalização, mas a criação para os outros: 4,6 passes chave por 90 minutos. Ele cria oportunidades pelo meio, abrindo espaço para os extremos chegarem. John Kennedy e Canobbio têm, combinados, 0,85 xG por 90 minutos quando Savarino está em campo.
A questão é se o sistema pode funcionar sem um centroavante com maior presença de área quando o Fluminense precisa de gols em uma partida fechada. Nos 3 jogos em que ficou atrás no placar, o time de Zubeldía teve dificuldade para encontrar o caminho para o gol: saiu vitorioso em apenas 1 dos 3.
## O calendário de abril
O Fluminense tem um abril com três frentes: Brasileirão, Copa Libertadores e Copa do Brasil. Zubeldía precisará rodar o elenco. Os dados dos jogadores de banco do tricolor mostram queda de rendimento de 18% nas métricas defensivas quando os titulares são poupados.
O jogo contra o Corinthians, com Zubeldía usando 4 alternâncias no time em relação ao último jogo, é o teste de rotatividade. Se os substitutos mantiverem o sistema defensivo, a campanha da vice-liderança sustenta. Se o desempenho cair com os titulares em descanso, o Brasileirão pode ser sacrificado para manter o ritmo nas copas.
## Diagnóstico
O Fluminense de Zubeldía é um time mais sólido do que o de Diniz, menos vistoso mas mais eficiente. A vice-liderança com 5 pontos de desvantagem para o Palmeiras está dentro das possibilidades. O risco principal é o calendário de abril, que vai testar se o elenco tem profundidade para sustentar três competições simultâneas.