R$ 1 bilhao em vendas em um mes. E o Brasileirão perde
Foto: Wikimedia Commons / CBF
Fora da Caixa 2026-04-07 3 min de leitura

R$ 1 bilhao em vendas em um mes. E o Brasileirão perde

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Em janeiro de 2026, clubes brasileiros ultrapassaram R$ 1 bilhao em vendas de jogadores em um unico mes. O mercado esta em nivel historico. Os clubes comemoram. E o Brasileirão fica mais fraco a cada janela.

Essa e a contradição que o futebol brasileiro não quer resolver.

O modelo que funciona para os clubes e falha para o produto

A logica e simples: clube brasileiro não tem receita de transmissao no nivel europeu, não tem receita de patrocinio no nivel europeu, não tem receita de estadio no nivel europeu. A unica forma de equilibrar as contas e vender jogadores, de preferencia jovens, formados na base, com alta margem de lucro.

Esse modelo e financeiramente racional para cada clube individualmente. Para o produto coletivo, e um ciclo de esvaziamento permanente.

Cauan Barros estava entre os primeiros artilheiros do Brasileirão 2026. Lucas Ronier, Pedro Morisco, Breno Bidon, Gabriel Bontempo, cinco nomes apontados como potenciais vendas antes do meio do ano. Cinco jogadores que, se fossem para a Europa, levariam embora parte do que torna o campeonato interessante para assistir.

O Brasileirão exporta sua propria razao de ser.

O que mudou na logica das vendas

Ha dez anos, o roteiro era diferente. Jogador formava no Brasil, tinha dois ou tres anos de Brasileirão, ia para a Europa com 21, 22 anos. Ainda jovem, mas ja com tempo suficiente para desenvolver identidade no futebol brasileiro, para o torcedor conhecer o nome, para a seleção avaliar em condicoes de pressao real.

Hoje, a negociacao comeca antes disso. Endrick foi para o Real Madrid com 18 anos. Estevao foi para o Chelsea com 18. Vitor Roque foi para o Barcelona com 19. A janela se antecipou.

O resultado e que o torcedor brasileiro conhece menos seus proprios jogadores do que os europeus conhecem. Endrick jogou mais jogos pelo Real Madrid do que pelo Palmeiras. Estevao e mais acompanhado na Premier League do que no Brasileirão porque sai cedo demais para haver acumulo de narrativa.

O que o futebol europeu entende que o brasileiro não quer aceitar

Os clubes que exportam os melhores talentos do mundo não sao necessariamente os que tem o melhor futebol. Os clubes que reteem os melhores talentos, Liverpool, City, Arsenal, Real Madrid, Barcelona, Bayern, sao os que tem o melhor produto e, consequentemente, as maiores receitas.

O futebol brasileiro optou pelo modelo oposto: exporta primeiro, tenta compensar depois. E a compensacao nunca e suficiente porque o ciclo reinicia antes que o jogador seguinte se estabeleca.

Enquanto Abel Ferreira e o Palmeiras provam que continuidade gera identidade, o restante do futebol brasileiro opera no sentido contrario: vende o melhor jogador antes que o torcedor se apegue a ele, contrata reposicao, vende a reposicao quando matura. E um supermercado de talentos que nunca tem estoque permanente.

O que acontece com a seleção

A consequencia mais visivel e na seleção: o Brasil convoca jogadores que o torcedor brasileiro não viu jogar com regularidade. Jogadores formados aqui, que se desenvolveram em outro pais, que tem identidade tatica europeia, que jogam na seleção periodicamente mas não tem enraizamento no futebol que representam.

Nao e critica a esses jogadores. E uma observacao estrutural: quando um pais exporta seus melhores jovens com 18 anos, o desenvolvimento deles acontece em outro contexto. A seleção nacional convoca jogadores que cresceram em outro sistema.

O que muda se o modelo mudar

Nao muda por vontade dos clubes. Muda por economia: o dia que o futebol brasileiro desenvolver receita de transmissao, patrocinio e estadio em nivel que compita com as vendas de jogadores, ai a logica muda.

A Copa de 2027 pode ser um catalisador para o futebol feminino. Para o masculino, o Brasileirão 2026 continua sendo o campeonato mais assistido da America do Sul com o melhor produto exportado antes de chegar ao auge.

Sao R$ 1 bilhao em vendas em um mes. E um bom problema de ter. E um pessimo sinal para quem quer assistir ao melhor futebol brasileiro dentro do Brasil.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo