Estêvão e o Dilema de Ancelotti no Brasil
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Prancheta 2026-04-07 3 min de leitura

Estêvão e o Dilema de Ancelotti no Brasil

Rafael Teixeira
Jornalista Esportivo
## O Problema de Ter Dois no Mesmo Setor Em setembro de 2024, Estêvão marcou seu primeiro gol pela seleção principal do Brasil numa vitória por 3 a 0 sobre o Chile. Tinha 17 anos. Em outubro do mesmo ano, converteu no minuto 95 para garantir a vitória do Chelsea sobre o Liverpool. O talento não está em discussão. O dilema de Ancelotti é tático: onde posicionar um atacante de corredor esquerdo quando Vinicius Junior já ocupa esse flanco com 11 participações diretas em gols nas eliminatórias? Nenhuma seleção de alto nível suporta dois atacantes no mesmo corredor sem custo estrutural. ## O Perfil de Jogo de Estêvão No Chelsea, sob Enzo Maresca, Estêvão opera como extremo esquerdo em um 4-2-3-1. Seu perfil é de jogador de dentro para fora: recebe aberto, corta para o pé direito, busca o espaço entre a linha de quatro e o bloco médio adversário. Nos primeiros meses na Europa, acumulou 10 participações diretas em gols na temporada 2025-26. O dado relevante é o ângulo de entrada. Estêvão não é um extremo de profundidade pura. Busca o entre-linhas com frequência, o que o aproxima taticamente de um meia-atacante pela esquerda, não de um ponta clássico. Essa característica abre uma possibilidade que Ancelotti ainda não testou com frequência na seleção. ## Vinicius na Esquerda. Estêvão Onde? O Brasil de Ancelotti opera em 4-2-4 com Vinicius como referência do corredor esquerdo. Rodrygo ocupa a direita. Raphinha, quando convocado, compete diretamente com Estêvão pela posição de apoio ao lado dos pontas. A alternativa mais discutida nos bastidores técnicos é usar Estêvão como falso 9, posição que ele nunca ocupou de forma sistemática na carreira. O risco é real: um falso 9 sem experiência na função tende a aprofundar demais, retirando a referência de segundo poste que o sistema 4-2-4 exige. A outra opção é uma migração tática do próprio sistema. Ancelotti poderia adotar um 4-3-3 com Estêvão pela esquerda e Vinicius centralizado, explorando a mobilidade do camisa 7. Mas Vinicius como centro-avante fixo perde entre 30% e 40% dos duelos de costas para o gol, segundo os dados de 2025. Nenhuma das soluções é limpa. ## A Lesão e o Fator Tempo Estêvão perdeu semanas da temporada por lesão, o que atrasou a integração ao sistema do Chelsea e reduziu o volume de dados disponíveis para Ancelotti calibrar o uso do atleta. Jogadores que retornam de lesão em abril ou maio chegam à Copa com ritmo de jogo inferior ao ideal. O histórico de Copa do Mundo mostra que jogadores com menos de 20 jogos de alta intensidade nos três meses anteriores ao torneio rendem em média 18% abaixo do padrão esperado nas fases iniciais. Se Estêvão chegar ao México, Estados Unidos e Canadá com ritmo pleno, a discussão tática torna-se urgente. Se chegar subcarregado, Ancelotti tende a mantê-lo como opção do banco nos jogos da fase de grupos. ## O Peso da Expectativa e o Custo do Papel Errado O Brasil do ciclo Tite errou sistematicamente ao criar funções táticas específicas para jogadores que não correspondiam ao perfil exigido. Neymar como referência isolada no 4-2-3-1 de 2022 é o exemplo mais claro: o camisa 10 rendeu bem pelos números individuais, mas o sistema não gerou transições eficazes. Enquadrar Estêvão no papel errado por pressão de torcida ou mídia repetirá o mesmo erro. O jogador de 18 anos não precisa ser o protagonista absoluto da Copa para que a Copa seja bem-sucedida para ele. O diagnóstico correto é o seguinte: Estêvão é o melhor jogador brasileiro para o pós-Copa 2026. Isso não significa que ele precise ser o mais importante em junho de 2026. Ancelotti, que administrou carreiras de Cristiano Ronaldo, Karim Benzema e Kylian Mbappé, sabe distinguir o calendário certo de cada jogador. A questão é se a pressão externa vai deixá-lo trabalhar com esse critério.
Rafael Teixeira Jornalista Esportivo

Rafael Teixeira tem 34 anos e nasceu em Goiânia. Formado em Educação Física pela UFG, trabalhou como analista de performance no Goiás EC entre 2018 e 2022, onde participou do acesso à Série A em 2018.... Ler perfil completo