O estádio brasileiro é o produto que o talento não merece
Foto: Wikimedia Commons / Maracana
Fora da Caixa 2026-04-07 3 min de leitura

O estádio brasileiro é o produto que o talento não merece

Marina Costa
Jornalista Esportiva

A Copa do Brasil 2026 reduziu a capacidade minima dos estadios da primeira fase de 4 mil para 2 mil lugares. A CBF exige pelo menos 10 mil lugares para a Serie A. E o VAR, que não pode ser instalado em qualquer estadio, chega so na quinta fase da Copa do Brasil.

Tres numeros. Tres evidencias do mesmo problema: o Brasil tem estadios para jogar futebol, mas não tem infraestrutura adequada para o nivel de competicao que pratica.

O que o estadio brasileiro representa hoje

Estadio e o produto principal do futebol. E onde o torcedor vai. E onde o ingresso e vendido. E onde a experiencia acontece.

Nos estadios modernos do futebol europeu, e nos da Copa de 2026 que acontece nos EUA, Canada e Mexico, o espectador entra num ambiente controlado: assento confortavel, visibilidade boa de qualquer ponto, alimentacao de qualidade, conectividade, seguranca, acesso facil.

No Brasileirão, a variacao e enorme. O Allianz Parque, a Arena do Corinthians, a Arena Castelao estao em nivel aceitavel. O Maracana reformado funciona. Mas varios estadios do Brasileirão ainda tem setores sem visibilidade adequada, arquibancadas sem cobertura, instalacoes sanitarias deficientes e logistica de acesso que transforma a ida ao jogo num exercicio de paciencia.

Por que a CBF reduziu a capacidade minima da Copa do Brasil

A reducao de 4 mil para 2 mil lugares na primeira fase tem justificativa: incluir mais clubes pequenos, de cidades menores, no torneio. E uma decisao inclusiva que expande o alcance da competicao.

O problema e que ela tambem confirma que o futebol brasileiro depende de infraestrutura que, em muitos casos, não atende nem o criterio minimo original.

Quando voce precisa reduzir o criterio de entrada porque poucos estadios atendem o criterio anterior, o problema não e o criterio. E a infraestrutura.

O VAR como espelho da infraestrutura

A historia do VAR no Brasileirão e reveladora. A tecnologia existe. A CBF investiu. Mas a aplicacao plena dependia de estadios com estrutura adequada, cabeamento, sala de operacoes, monitores, conexao estavel.

Isso criou a situacao em que o VAR chegou ao Brasileirão de forma fragmentada: alguns estadios tinham estrutura, outros nao. A CBF garantiu VAR em todas as 380 partidas da Serie A de 2026, bom. Mas a Copa do Brasil ainda opera sem VAR nas quatro primeiras fases porque os estadios das fases iniciais não tem condicoes.

O estadio e o limitante tecnologico. Enquanto a infraestrutura for inadequada, a tecnologia não pode ser universalizada.

Quem paga o preco

O torcedor.

O torcedor que vai ao estadio sem cobertura quando chove. Que fica em setor sem visibilidade porque e o que cabe no orcamento. Que tem a experiencia do jogo ao vivo degradada por condicoes que em qualquer estadio europeu de segundo escalao seriam inaceitaveis.

E o torcedor de cidade menor que assiste ao jogo da Copa do Brasil sem VAR porque o estadio local não tem infraestrutura para a tecnologia, e cujo time pode ser eliminado por erro arbitral que, no jogo da quinta fase, teria sido corrigido.

O que esta mudando, e devagar

Ha novos projetos. Arena de São Paulo expandindo. Estadios reformados. Investimento privado em algumas praças. A Copa de 2027 vai exigir que cidades sede do torneio feminino tenham estadios em nivel internacional.

Mas o ritmo de modernizacao e lento para um pais que quer competir como potencia do futebol mundial. O Brasil exporta jogadores, gera talentos, tem historia. E recebe esses jogadores em estadios que, em muitos casos, ficaram no seculo XX.

O futebol comeca no campo. Mas o produto comeca no estadio. Enquanto o estadio não evoluir, o produto vai continuar sendo menor do que o talento que o pais produz.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo