Endrick tem 18 anos. O Brasil quer que ele resolva tudo
CBF / Divulgacao
Fora da Caixa 2026-04-06 4 min de leitura

Endrick tem 18 anos. O Brasil quer que ele resolva tudo

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Endrick tem 18 anos. Está no Lyon emprestado pelo Real Madrid. Marcou seis gols, deu quatro assistências em 11 jogos. Voltou à seleção brasileira. Foi decisivo com duas participações em gols em 21 minutos contra a Croácia.

O Brasil quer que ele resolva o que Rodrygo deixou em aberto. Que seja a resposta para a carência de um centroavante de área. Que chegue à Copa e faça o que os mais velhos não conseguiram.

Com 18 anos.

Existe uma linha tênue entre acreditar num talento e sobrecarregar um jovem com responsabilidade que não é dele. O Brasil, historicamente, não sabe onde essa linha está.

O que os dados de Endrick dizem e o que eles não dizem

Três gols em 14 jogos pela seleção brasileira. É o atacante que mais marcou no ciclo de Ancelotti. O número é positivo para um jogador que sempre entra no segundo tempo, quando os espaços já estão abertos e os defensores estão cansados.

Mas o dado que falta: nenhum desses gols foi em situação de jogo decidido, contra adversário de alto nível, num minuto em que o resultado dependia diretamente da sua atuação. São gols de atacante que entra quando o placar está favorável ou empatado em amistoso preparatório.

Isso não diminui a qualidade de Endrick. Diminui a solidez da narrativa de que ele está pronto para ser titular numa Copa do Mundo.

O que o Real Madrid sabe que o Brasil ainda está aprendendo

O Real Madrid emprestou Endrick para o Lyon. Não por falta de confiança. Por entendimento de que jogadores jovens precisam de minutos reais, em ambiente competitivo, antes de assumir protagonismo num clube que joga pela Liga dos Campeões.

O Real Madrid é um dos clubes que mais entende de desenvolvimento de jovens atletas no futebol europeu. Eles viram o que acontece quando um talento é exposto cedo demais ao protagonismo. Guardiola, Bellingham, Vini Jr. no início, todos passaram por processo de adaptação.

O Lyon foi escolhido porque oferece Ligue 1, competição de bom nível, sem a pressão de Madrid. Endrick está ganhando rodagem. Está aprendendo a jogar por 90 minutos em alta intensidade. Está construindo o jogador que vai ser.

O Brasil quer que esse processo seja encurtado em dois meses.

O paradoxo da geração precoce

O futebol brasileiro exporta talentos cada vez mais jovens para a Europa. Estêvão foi para o Chelsea. Endrick foi para o Real. Vitor Reis foi para o Manchester City. É uma geração extraordinária de jogadores, sem dúvida.

Mas precocidade tem custo. Jogadores que chegam à Europa com 17, 18 anos precisam de tempo para amadurecer fisicamente e taticamente. Endrick ainda está nesse processo. O musculatura de um atacante de 18 anos não é a mesma de 23 anos. A leitura de jogo de um jovem com um ano de Ligue 1 não é a mesma de alguém com quatro anos de Champions.

Ronaldo foi o centroavante mais dominante do mundo quando tinha 21, 22 anos. Quando tinha 18, estava aprendendo. Neymar teve grandes Copas com 20 e 24 anos. Com 18, chegou na Copa de 2010 na lista mas não como solução definitiva.

O que estamos pedindo para Endrick não tem precedente histórico no futebol brasileiro.

A questão que Ancelotti vai precisar responder

Se o Brasil não tem Rodrygo e precisa de alguém para ser centroavante de área, as opções são: Endrick, que tem o perfil mas não tem experiência de Copa; Matheus Cunha, que joga na Premier League mas tem histórico irregular; ou Ancelotti improvisa alguém que não é 9 de origem.

Nenhuma das opções é confortável. Todas têm risco. E a Copa do Mundo não é o momento certo para resolver dilemas que deveriam ter sido encaminhados no ciclo.

O problema do Brasil não é que Endrick não seja bom. É que o país depositou esperança demais num jogador de 18 anos como solução para uma carência estrutural que existe há anos.

O que Endrick merece que o Brasil não está dando

Endrick merece chegar à Copa sem o peso de "resolver o problema do ataque". Merece jogar como o quinto ou sexto atacante da lista, entrar quando fizer sentido, marcar quando a situação pedir, e construir experiência sem que cada atuação seja julgada como definição do seu legado.

O Brasil tem um projeto sendo construído há 14 meses. Endrick faz parte desse projeto. Não é o protagonista do projeto.

Se a diferença entre essas duas posições ficar clara para todos, incluindo a imprensa e a torcida, Endrick vai à Copa e volta melhor. Se não ficar, vai com o peso que fez Neymar desaparecer em jogos decisivos e Vini Jr. perder dribles fáceis quando mais precisava acertar.

O talento existe. A proteção, por enquanto, não.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo