Endrick tem 18 anos. Está no Lyon emprestado pelo Real Madrid. Marcou seis gols, deu quatro assistências em 11 jogos. Voltou à seleção brasileira. Foi decisivo com duas participações em gols em 21 minutos contra a Croácia.
O Brasil quer que ele resolva o que Rodrygo deixou em aberto. Que seja a resposta para a carência de um centroavante de área. Que chegue à Copa e faça o que os mais velhos não conseguiram.
Com 18 anos.
Existe uma linha tênue entre acreditar num talento e sobrecarregar um jovem com responsabilidade que não é dele. O Brasil, historicamente, não sabe onde essa linha está.
O que os dados de Endrick dizem e o que eles não dizem
Três gols em 14 jogos pela seleção brasileira. É o atacante que mais marcou no ciclo de Ancelotti. O número é positivo para um jogador que sempre entra no segundo tempo, quando os espaços já estão abertos e os defensores estão cansados.
Mas o dado que falta: nenhum desses gols foi em situação de jogo decidido, contra adversário de alto nível, num minuto em que o resultado dependia diretamente da sua atuação. São gols de atacante que entra quando o placar está favorável ou empatado em amistoso preparatório.
Isso não diminui a qualidade de Endrick. Diminui a solidez da narrativa de que ele está pronto para ser titular numa Copa do Mundo.
O que o Real Madrid sabe que o Brasil ainda está aprendendo
O Real Madrid emprestou Endrick para o Lyon. Não por falta de confiança. Por entendimento de que jogadores jovens precisam de minutos reais, em ambiente competitivo, antes de assumir protagonismo num clube que joga pela Liga dos Campeões.
O Real Madrid é um dos clubes que mais entende de desenvolvimento de jovens atletas no futebol europeu. Eles viram o que acontece quando um talento é exposto cedo demais ao protagonismo. Guardiola, Bellingham, Vini Jr. no início, todos passaram por processo de adaptação.
O Lyon foi escolhido porque oferece Ligue 1, competição de bom nível, sem a pressão de Madrid. Endrick está ganhando rodagem. Está aprendendo a jogar por 90 minutos em alta intensidade. Está construindo o jogador que vai ser.
O Brasil quer que esse processo seja encurtado em dois meses.
O paradoxo da geração precoce
O futebol brasileiro exporta talentos cada vez mais jovens para a Europa. Estêvão foi para o Chelsea. Endrick foi para o Real. Vitor Reis foi para o Manchester City. É uma geração extraordinária de jogadores, sem dúvida.
Mas precocidade tem custo. Jogadores que chegam à Europa com 17, 18 anos precisam de tempo para amadurecer fisicamente e taticamente. Endrick ainda está nesse processo. O musculatura de um atacante de 18 anos não é a mesma de 23 anos. A leitura de jogo de um jovem com um ano de Ligue 1 não é a mesma de alguém com quatro anos de Champions.
Ronaldo foi o centroavante mais dominante do mundo quando tinha 21, 22 anos. Quando tinha 18, estava aprendendo. Neymar teve grandes Copas com 20 e 24 anos. Com 18, chegou na Copa de 2010 na lista mas não como solução definitiva.
O que estamos pedindo para Endrick não tem precedente histórico no futebol brasileiro.
A questão que Ancelotti vai precisar responder
Se o Brasil não tem Rodrygo e precisa de alguém para ser centroavante de área, as opções são: Endrick, que tem o perfil mas não tem experiência de Copa; Matheus Cunha, que joga na Premier League mas tem histórico irregular; ou Ancelotti improvisa alguém que não é 9 de origem.
Nenhuma das opções é confortável. Todas têm risco. E a Copa do Mundo não é o momento certo para resolver dilemas que deveriam ter sido encaminhados no ciclo.
O problema do Brasil não é que Endrick não seja bom. É que o país depositou esperança demais num jogador de 18 anos como solução para uma carência estrutural que existe há anos.
O que Endrick merece que o Brasil não está dando
Endrick merece chegar à Copa sem o peso de "resolver o problema do ataque". Merece jogar como o quinto ou sexto atacante da lista, entrar quando fizer sentido, marcar quando a situação pedir, e construir experiência sem que cada atuação seja julgada como definição do seu legado.
O Brasil tem um projeto sendo construído há 14 meses. Endrick faz parte desse projeto. Não é o protagonista do projeto.
Se a diferença entre essas duas posições ficar clara para todos, incluindo a imprensa e a torcida, Endrick vai à Copa e volta melhor. Se não ficar, vai com o peso que fez Neymar desaparecer em jogos decisivos e Vini Jr. perder dribles fáceis quando mais precisava acertar.
O talento existe. A proteção, por enquanto, não.