Leitura Tática
Dortmund 4-3-3 vs Atalanta 3-4-2-1: como Kovac eliminou Gasperini da Champions
## O confronto das oitavas
Borussia Dortmund eliminou a Atalanta nas oitavas de final da Champions League 2025/26 com um 2 a 0 no agregado. O resultado foi mais confortável do que o esperado para um confronto entre dois times com volumes de pressing similares e sistemas ofensivos próximos no papel.
O que separou os dois times na eliminatória foi a eficiência nas corridas sem bola: o Dortmund de Niko Kovac é o time com mais corridas diagonais nas costas da linha defensiva adversária na fase de grupos, 7,2 por 90 minutos. A Atalanta concede exatamente esse tipo de movimento nos corredores entre os wing-backs e os zagueiros centrais do 3-4-2-1 de Gasperini.
## O sistema do Dortmund de Kovac
Niko Kovac chegou ao Dortmund após a demissão de Nuri Sahin e instalou um 4-3-3 mais compacto e direto. O sistema usa Guirassy como referência central e Adeyemi e Malen pelas pontas, com funções de inversão e profundidade alternadas.
Serhou Guirassy terminou a fase de grupos com 10 gols na Champions. O atacante guineense usa a força física para fixar os dois zagueiros centrais adversários e liberar os extremos pela diagonal. Quando Guirassy segura o zagueiro, Adeyemi corre pelo corredor esquerdo em diagonal para atrás da linha: é o padrão mais frequente do ataque do Dortmund.
O dado de Adeyemi na Champions esta temporada é de 3,8 corridas nas costas da linha defensiva por 90 minutos, o segundo maior entre extremos da competição. O mecanismo é sistemático: construção pelo lado direito, passe para Guirassy no centro, Guirassy retém e distribui para Adeyemi já em velocidade pelo lado esquerdo.
## O problema estrutural da Atalanta
O 3-4-2-1 de Gasperini tem uma vulnerabilidade conhecida: o espaço entre o wing-back e o zagueiro lateral quando os dois são puxados para posições diferentes. Quando o wing-back sobe no ataque e o zagueiro lateral é atraído para o centro por uma referência como Guirassy, o corredor de 8 a 12 metros abre.
Contra o Dortmund, Gasperini tentou resolver isso com o zagueiro lateral cobrindo mais fundo quando Adeyemi aparecia. O problema é que essa cobertura deixava o segundo meia entre linhas da Atalanta (Pasalic ou Retegui, dependendo da escalação) com menos cobertura nas costas.
O primeiro gol do Dortmund foi exatamente por esse mecanismo: Guirassy recebeu no centro, girou para o lado esquerdo do ataque, e Adeyemi apareceu pela diagonal com o espaço aberto entre Scalvini (que desceu para cobrir Guirassy) e o wing-back que havia avançado na jogada anterior.
## Como a Atalanta tentou responder
Gasperini ajustou no segundo jogo com wing-backs mais conservadores. A Atalanta reduziu de 4,2 para 2,8 subidas ofensivas dos wing-backs por 90 minutos no segundo jogo. O problema é que essa mudança retirou o principal mecanismo ofensivo do time: as subidas de Hateboer e Ruggeri pelos corredores laterais são a fonte de 38% dos ataques da Atalanta na Serie A.
A Atalanta com wing-backs conservadores é um time diferente. Mais compacta defensivamente, mas com muito menos produção ofensiva. Os dados de xG do segundo jogo confirmam: 0,7 xG para a Atalanta contra 1,4 para o Dortmund.
Gasperini não tem meio-termo: ou usa os wing-backs para atacar (e abre os corredores) ou os mantém defensivos (e perde a criação). Contra equipes que exploram os corredores com velocidade, o dilema é estrutural.
## O pressing do Dortmund
Um aspecto subestimado na análise do confronto é o pressing do Dortmund. Kovac implementou um pressing de bloco médio-alto que forçou a Atalanta a jogar bolas longas para escapar. A Atalanta, que tem 78% de acerto de passe na Serie A, caiu para 64% no segundo jogo.
Quando o bloco de pressing do Dortmund funciona, os três meias (Can, Brandt e Gross) cobrem os corredores de passe para os wing-backs da Atalanta, forçando o jogo longo. Nos lances longos, os zagueiros do Dortmund ganharam 71% dos duelos aéreos contra os atacantes de Bergamo.
## O que isso significa para as quartas
O Dortmund nas quartas enfrenta o Barcelona, que eliminou o time alemão na temporada anterior por 4 a 0 na ida. A memória do confronto é pesada, mas o Dortmund de Kovac é estruturalmente diferente do de Sahin.
A análise da temporada anterior mostra que o Barcelona de Flick não joga em 2025/26. A versão atual, com Raphinha lesionado e Rashford na adaptação, tem menos amplitude pelo lado direito. A mesma corrida diagonal de Adeyemi que funcionou contra a Atalanta pode funcionar contra o lateral direito do Barcelona.
## Diagnóstico
O Dortmund eliminou a Atalanta explorando a vulnerabilidade estrutural do 3-4-2-1 de Gasperini nos corredores. Guirassy como fixador e Adeyemi como corredor diagonal são os dois mecanismos mais eficientes do sistema de Kovac. Na disputa com Gasperini, o modelo mais direto venceu o modelo mais criativo.