10 rodadas. 10 técnicos demitidos. Uma demissao por jogo
Arquivo / Globo Esporte
Fora da Caixa 2026-04-06 4 min de leitura

10 rodadas. 10 técnicos demitidos. Uma demissao por jogo

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Dez rodadas. Dez técnicos demitidos. Um por jornada, com a pontualidade de quem pagou uma assinatura.

Sampaoli saiu do Atlético-MG em fevereiro. Diniz foi embora do Vasco. Tite deixou o Cruzeiro após empate. Filipe Luís perdeu o emprego no Flamengo. Hernán Crespo foi dispensado do São Paulo. Anselmi, Vojvoda, Dal Pozzo, Dorival no Corinthians, Osorio no Remo.

Dez treinadores. Dez jogos. Uma média que não é acidente. É política.

O número que ninguém quer encarar

Existem três treinadores que estão há mais de um ano no mesmo clube no Brasileirão 2026: Abel Ferreira no Palmeiras, Rogério Ceni no Bahia, e Rafael Guanaes no Mirassol. Três.

Os outros 17 clubes da elite do futebol brasileiro chegaram à décima rodada com treinadores que, em sua maioria, estavam há menos de seis meses no cargo. Alguns há semanas.

Não é coincidência que Abel Ferreira e Rogério Ceni estejam entre os treinadores mais bem-sucedidos do campeonato. Continuidade gera resultado. Todo estudo sério sobre gestão esportiva confirma isso. O problema é que os dirigentes do futebol brasileiro leram os estudos e decidiram não acreditar.

A demissão como política de comunicação

O carrossel de técnicos no Brasil foi tema deste portal. O que os dados de 2026 mostram é que o problema ficou pior.

Uma demissão por rodada não é gestão. É teatro. É sinalização para a torcida de que algo está sendo feito, mesmo quando a demissão é exatamente o oposto de "fazer algo". É a troca de um sintoma pelo outro sem tratar a doença.

Flamengo é o caso mais emblemático desta temporada. Filipe Luís chegou como herói, formado no clube, com proposta de jogo clara e resultados no Carioca. Nos primeiros tropeços no Brasileirão, foi demitido. O Flamengo voltou a contratar um técnico estrangeiro, repetindo um ciclo que já havia tentado e descartado.

A pergunta que ninguém faz nos dias seguintes à demissão: o que mudou? Qual problema foi resolvido? O elenco é o mesmo. A diretoria é a mesma. A estrutura é a mesma. Só o técnico saiu.

Por que Abel e Rogério sobrevivem onde outros não conseguem

Abel Ferreira está no Palmeiras desde 2020. Já somou cinco títulos. A diretoria nunca o demitiu, mesmo em fases de instabilidade. O técnico construiu uma identidade, uma metodologia, um jeito de jogar que o elenco conhece profundamente. Quando o Palmeiras perde três jogos seguidos, não há pânico porque existe um projeto estabelecido.

Rogério Ceni no Bahia seguiu trajetória similar. Construiu ao longo de dois anos um time com identidade defensiva sólida e transições rápidas. Mesmo com elenco inferior ao das grandes potências financeiras do campeonato, o Bahia compete porque todos sabem exatamente o que fazer.

Esse é o modelo. Está provado. Funciona. E 17 dos 20 clubes do Brasileirão ignoram completamente.

O custo que os clubes nunca calculam

Demitir um técnico custa dinheiro. Rescisão, multas, negociação. No futebol brasileiro, onde a grande maioria dos clubes opera com déficit crônico, esse gasto se acumula de forma absurda ao longo de uma temporada.

Mas o custo real não é financeiro. É de desenvolvimento.

Um jogador jovem precisa de 18 a 24 meses para absorver completamente um sistema de jogo. Com treinadores que duram menos de seis meses, esse jogador nunca aprende um sistema. Aprende a se adaptar toda hora. A sobreviver no improviso. A fazer o que o técnico novo pede, sabendo que o próximo vai pedir outra coisa.

O futebol brasileiro exporta jogadores jovens para a Europa. E parte do sucesso deles na Europa é que finalmente encontram um ambiente com continuidade. São Paulo vendeu jogador que estava aqui improvisando e chegou no exterior com sistema. Aprendeu o sistema. Floresceu.

O problema não era o jogador. Era o ambiente.

O que os 17 outros clubes têm em comum

Conselhos deliberativos que interferem em decisões técnicas. Presidentes que leem manchetes de jornal de portal esportivo. Torcidas organizadas com acesso ao vestiário. Diretores que nunca jogaram futebol e têm opinião sobre posicionamento de time.

Não estou dizendo que torcida não pode cobrar. Torcida deve cobrar. O problema é quando a cobrança vira pauta da gestão. Quando a decisão de manter ou demitir um treinador é tomada com base no humor das redes sociais e não na análise técnica do trabalho.

Abel Ferreira sobrevive no Palmeiras porque a diretoria tem blindagem institucional suficiente para dizer não quando precisa. Ceni sobrevive no Bahia pelo mesmo motivo.

Nos outros 17 clubes, a gestão técnica é gerenciada por crise. E crise demite treinador.

Dez rodadas e dez treinadores

O Brasileirão tem 38 rodadas. Neste ritmo, seremos 38 treinadores demitidos ao final da temporada.

Isso não vai acontecer. A curva desacelera porque eventualmente até os clubes mais impacientes percebem que o mercado de treinadores disponíveis esgota. Que o quarto técnico da temporada tem acesso a menos bons candidatos do que o primeiro.

Mas o dano já está feito. O Brasileirão concentra títulos nos mesmos três ou quatro clubes há anos. E a razão estrutural é exatamente essa: os que ganham têm projeto. Os que demitem não têm.

Dez rodadas. Dez treinadores. Uma décima temporada de clubes que sabem demitir e não sabem planejar.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo