Demitir não resolve. Mas continuar também não.
Wikimedia Commons / Agência Brasil
Banco de Reservas 2026-04-07 4 min de leitura

Demitir não resolve. Mas continuar também não.

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Em dez rodadas do Brasileirão 2026, o campeonato ja viu dez demissoes de tecnico. Uma por rodada. Com a regularidade de um calendario.

O debate depois de cada demissao e sempre o mesmo: o tecnico era bom mas não tinha material, ou o material era bom mas o tecnico não servia. Nunca a terceira opcao -- que o problema e a estrutura que produz a crise e que vai continuar produzindo independente de quem for demitido ou contratado.

Nao vou defender todos os tecnicos demitidos. Alguns mereceram. O Tite no Cruzeiro durou seis rodadas porque as escolhas taticas eram sistematicamente erradas para o elenco disponivel. O time não tinha capacidade de executar o que ele pedia. Mas isso levanta outra pergunta: quem contratou Tite sabia o que estava contratando? O perfil do treinador combinava com o perfil do elenco?

O problema e anterior ao tecnico

Clubes brasileiros contratam tecnicos como se o tecnico fosse a variavel que determina tudo. Contratou tecnico bom, tudo vai funcionar. Demitiu o tecnico ruim, o problema foi resolvido. Mas o futebol não funciona assim -- nunca funcionou.

O Atletico-MG estava na zona de rebaixamento com o tecnico que ganhou a Libertadores com o Botafogo. Artur Jorge chegou ao Cruzeiro -- clube que estava no ultimo lugar -- e em poucas rodadas o time respondeu. A logica seria: Jorge e genio, o anterior era incompetente. Mas a explicacao mais honesta e que o Cruzeiro tinha material para fazer mais do que estava fazendo. O tecnico anterior não soube usar. Jorge soube. Isso não e magica -- e leitura de elenco.

O Atletico-MG com Milito não funcionou. Com outro tecnico vai funcionar? Talvez. Mas o que vai mudar na estrutura que produziu a demissao? Se nada mudar, o proximo tecnico vai enfrentar as mesmas condicoes. E pode tambem cair.

Qual o criterio para demitir?

A maioria dos clubes brasileiros não tem criterio definido para demissao. Tem gatilho emocional: tres derrotas seguidas, vaiado pela torcida, mal resultado em classico. Isso e reatividade, não gestao.

Gestao de verdade tem indicadores: o time esta melhorando em metricas relevantes? O elenco esta mais organizado do que estava? A evolucao e visivel mesmo quando o resultado não veio? Se a resposta for sim em todas, manter. Se a resposta for não em todas, avaliar. Mas precisamente, com dados, não com emocao.

O Fluminense de Zubeldía e o exemplo contrario. O argentino chegou em momento de crise, perdeu jogos importantes no inicio, mas os indicadores mostravam evolucao: o time ficava mais compacto, as bolas paradas criavam oportunidades reais, a organizacao defensiva melhorava semana a semana. Resultado: vice-lideranca no Brasileirão 2026 construida em bola parada. Continuidade produziu resultado.

A conta que os clubes não fazem

Demitir tecnico tem custo. Indenizacao. Salario do interino. Salario do proximo contratado. Tempo de adaptacao. Recomeco do processo de identificacao de elenco. Esses custos nunca aparecem no debate publico -- so o nome do demitido e do novo contratado.

A conta que os clubes não fazem e a do custo de oportunidade: o quanto de construcao tatical foi perdido na demissao? Quanto tempo vai levar para o proximo tecnico chegar ao mesmo nivel de entendimento do elenco que o anterior tinha? Essa conta e invisivel mas e real.

O Palmeiras não demitiu Abel Ferreira quando o time perdeu jogos importantes. Nao demitiu quando a torcida reclamou de um resultado ruim. Deu continuidade. O resultado sao onze titulos e lideranca solida no Brasileirão 2026. O Abel do comeco não e o Abel de hoje. Cresceu com o clube. O clube cresceu com ele. Isso não se compra na janela de transferencias de tecnico.

Quando demitir e certo

Demissao e necessaria quando o tecnico não tem mais capacidade de adaptar. Quando o elenco não responde mais ao estimulo. Quando a relacao e insustentavel. Quando os dados mostram regressao em vez de evolucao.

O problema não e demitir. E demitir sem criterio, contratar sem planejamento, e repetir o ciclo sem aprender com ele. O Brasileirão 2026 ja mostrou que os clubes que estao bem na tabela sao os que menos demitiram. Essa correlacao não e acidente.

Demitir não resolve. Mas continuar com um tecnico que não funciona tambem nao. A solucao esta no meio: criterio claro, processo definido, decisao baseada em dados e não em pressao de torcida. Poucos clubes brasileiros chegaram la ainda. A tabela mostra quais chegaram.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo