O Brasil vai sediar a Copa do Mundo Feminina em 2027. O Maracana recebe a abertura e a final. A seleção treina. O pais que vai organizar o maior evento do futebol feminino ainda discute se mulher jogando futebol merece cobertura seria.
Tem um problema de coerencia aqui que o futebol brasileiro não quer olhar de frente.
O que a Copa 2027 representa, e o que o Brasil faz com ela
A candidatura brasileira venceu a disputa com a candidatura conjunta de Alemanha, Belgica e Holanda por 119 a 78 votos no Congresso da FIFA. Foi uma vitoria expressiva. O Brasil vai sediar a Copa em 2027 porque tem infraestrutura, tem mercado, tem tradição esportiva.
Agora a seleção feminina precisa de uma preparação que corresponda ao evento que o pais vai receber. Arthur Elias convocou, organizou amistosos contra Costa Rica, Venezuela, Mexico, Coreia do Sul, Zambia, Canada. Ha plano. Ha trabalho.
O que não ha e proporcao entre o que esta sendo construido e o que o pais esta prestando atencao.
O que Arthur Elias precisa que o Brasil entenda
Arthur Elias e o tecnico certo pra esse momento. Conhece as jogadoras, tem projeto tatico, trabalha desenvolvimento de jovens em paralelo com consolidacao das titulares. Luana voltou ao time apos superar cancer no sistema linfatico e foi convocada. Maiara Niehues, 21 anos, entrou no grupo. Ha renovacao acontecendo.
O problema não e o tecnico. E o ambiente.
Quando a seleção feminina joga bem, a cobertura e sobre "elas se saíram bem para o nivel feminino". Quando perde, o comentario e sobre "ainda e futebol feminino". O filtro nunca sai. O paternalismo e permanente.
Isso tem custo real. Jogadoras formadas no Brasil estao na Espanha, na Franca, na Inglaterra, nos Estados Unidos. Marta construiu carreira fora. Formiga jogou no exterior por decadas. O futebol feminino brasileiro exporta talento e não investe no produto interno porque não ha audiencia que justifique o investimento, e não ha audiencia porque não ha investimento.
O que a sede da Copa exige que mude
A FIFA não entregou a sede do evento para o Brasil por acidente. A expectativa e que o pais seja anfitrao de um evento que legitime e promova o futebol feminino internacionalmente.
Isso inclui estadios preparados. Inclui transmissao de qualidade. Inclui cobertura jornalistica com o mesmo rigor do masculino, sem o "para menina ta bom", sem o texto condescendente, sem a manchete que parabeniza por algo que seria tratado como obrigacao no futebol masculino.
O amistoso contra os Estados Unidos confirmado para junho de 2026 e um teste. Os EUA tem o futebol feminino mais desenvolvido do mundo, estrutura profissional, audiencia gigante, historial de duas Copas do Mundo. E um adversario que vai medir onde a seleção brasileira realmente esta.
Se o resultado for bom, a discussao precisa ser sobre o jogo, sistemas, pressing, qualidade das jogadoras, o que Arthur Elias construiu. Nao sobre "olha como elas jogaram bem".
As jogadoras que o Brasil subestima
Adriana, atacante. Ary Borges, meio-campista que joga no futebol europeu. Tamires, lateral. Gabi Portilho. Duda Santos. Sao jogadoras com carreira solida, numeros concretos, experiencia internacional.
Mas pergunte pra qualquer torcedor de futebol masculino os nomes das titulares da seleção feminina. A maioria não sabe. Em um pais que vai sediar a Copa do Mundo Feminina em 2027.
O paradoxo que o Brasil precisa resolver ate 2027
O Brasil ganhou o direito de sediar o maior evento do futebol feminino. Mas sedia um campeonato que, culturalmente, ainda trata como produto de segundo nivel.
Isso não muda em um ano. Muda com cobertura continua, com investimento real nos clubes femininos, com transmissao que coloca o produto em evidencia, com critica tecnica que trata as jogadoras como profissionais, não como voluntarias que merecem elogio por aparecer.
A Copa 2027 vai acontecer. A seleção vai jogar. O Maracana vai estar cheio, a FIFA vai garantir isso.
O que o Brasil decide, nos proximos doze meses, e se vai usar o evento para construir algo permanente no futebol feminino brasileiro, ou se vai usar o evento como vitrine e voltar ao business as usual em 2028.
A escolha e agora. O evento e em 2027. O Brasil ja perdeu a janela outras vezes. Dessa vez, a janela e no proprio quintal.