A Copa Feminina é aqui. E o Brasil ainda chama de aquela coisa
CBF / Divulgacao
Ela em Campo 2026-04-06 4 min de leitura

A Copa Feminina é aqui. E o Brasil ainda chama de aquela coisa

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Rodolfo Landim chamou o futebol feminino de "aquela coisa". Disse que a Copa do Mundo de 2027, no Brasil, levaria apenas duas mil pessoas ao Maracanã. Sugeriu mandar o Mundial para o estádio do Bangu.

Enquanto isso, a Copa de 2023 gerou R$ 2,8 bilhões em receita e foi assistida por dois bilhões de pessoas no mundo todo.

Esse é o presidente do Flamengo. Um dos maiores clubes do Brasil. Falando sobre o maior evento esportivo que o país sediará nos próximos anos.

A pergunta não é se Landim estava errado. Estava, e os dados mostram isso sem margem para debate. A pergunta é o que as declarações dele revelam sobre o estado do futebol feminino no Brasil, e por que a Copa de 2027 está chegando com o país ainda despreparado para recebê-la da forma que ela merece.

O que Landim disse e o que os dados respondem

Landim afirmou que o futebol feminino "não atrai público". Arthur Elias, técnico da seleção feminina, respondeu que ele estava "claramente desinformado". E tinha razão.

O Mundial feminino de 2023 bateu recordes históricos. Duas mil partidas vendidas esgotadas. Dois bilhões de espectadores. Receita de R$ 2,8 bilhões. A final entre Espanha e Inglaterra lotou o Stadium Australia em Sydney, com 75 mil pessoas. O Brasil não ganhou o título, mas chegou às quartas de final com estádios cheios.

Esses não são números de um esporte sem público. São números de um produto que cresceu mais rápido do que a maioria dos dirigentes do futebol masculino estava preparada para aceitar.

O problema de Landim não é desconhecimento. É resistência.

O preconceito que veste uniforme de pragmatismo

Landim não foi o único. Ele foi o mais barulhento, mas o raciocínio que ele expressou é exatamente o que orienta a maioria dos clubes brasileiros na hora de investir, ou de não investir, no futebol feminino.

O argumento é sempre o mesmo: "O futebol feminino não se paga." "Não tem público." "Não tem retorno para o clube." É o preconceito vestido de análise financeira. E funciona porque é difícil refutar no curto prazo: se o clube nunca investiu, nunca vai ter o retorno que justificaria o investimento.

É o paradoxo clássico do subinvestimento. E o futebol feminino brasileiro está preso nele há décadas.

A seleção que compete apesar do Brasil

A seleção brasileira feminina é, historicamente, melhor do que o ambiente que a suporta. Marta foi seis vezes a melhor jogadora do mundo. Formiga jogou Copas do Mundo por 24 anos. Cristiane é uma das maiores artilheiras da história do futebol feminino.

Tudo isso aconteceu com uma estrutura de base mínima. Com clubes que tratavam o feminino como departamento secundário. Com transmissões que durante anos eram escassas. Com salários que até pouco tempo eram inaceitáveis comparados ao masculino.

A seleção feminina ainda constrói a identidade de jogo que precisa para 2027. Em março, perdeu para o México por 1 a 0 num amistoso preparatório. Não é crise, mas é sinal de que o caminho é longo e o tempo é curto.

Faltam pouco mais de 12 meses para a Copa. A CBF anunciou R$ 685 milhões em investimentos nas competições femininas entre 2024 e 2029. É um número que parece grande até você comparar com o que é investido no masculino. E até você perceber que parte desse dinheiro é projeção, não compromisso.

O que a Copa de 2027 pode mudar

Ou não vai mudar nada. Depende de como o Brasil receber o evento.

A Copa Feminina de 2027 é uma oportunidade única: o país como sede, com a seleção jogando em casa, com a torcida nos estádios. Se o Brasil aproveitar isso para criar uma geração de torcedores do futebol feminino, o legado vai além dos 90 minutos.

Se o Brasil tratar como um evento de passagem, com estádios pela metade, transmissões improvisadas, e dirigentes como Landim ainda mandando a pauta, o legado vai ser zero.

A comparação óbvia é com 2014 no masculino. O legado que ficou foi de estádios caros e sem uso. Não é o que o feminino merece repetir.

O rigor que o futebol feminino sempre pediu

Cobrar a seleção feminina com o mesmo rigor do masculino não é desrespeito. É o contrário. É tratar o futebol feminino como o produto sério que ele é.

A derrota para o México incomoda. O aproveitamento recente não é o que uma candidata ao título precisa mostrar. O sistema ofensivo ainda procura consistência. A transição defensiva precisa de ajustes. Essas críticas valem para qualquer seleção com a Copa chegando.

O que não vale é diminuir o tamanho do desafio porque "é futebol feminino". O desafio é enorme. O palco é o maior que o Brasil já recebeu nessa modalidade. E a seleção vai para ele com pressão, cobrança e responsabilidade.

Exatamente como deveria ser.

Landim que aprenda a diferença entre "não atrai público" e "você nunca tentou atrair".

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo