Copa do Brasil sem VAR: a igualdade que não existe
Foto: Wikimedia Commons / FIFA
Fora da Caixa 2026-04-06 4 min de leitura

Copa do Brasil sem VAR: a igualdade que não existe

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O VAR entra na Copa do Brasil a partir da quinta fase. Antes disso, 126 clubes disputam quatro fases sem acesso a tecnologia que ja existe, ja funciona e ja deveria ser obrigatoria.

A CBF chama isso de "igualdade". Na pratica, e a institucionalizacao da arbitragem de segunda categoria para a maioria dos clubes do pais.

O argumento que não se sustenta

A justificativa oficial e tecnica: nem todos os estadios das fases iniciais sao homologados para o VAR. Infraestrutura inadequada, limitacoes operacionais, questoes logisticas.

O argumento soa razoavel ate voce pensar nele por mais de trinta segundos.

A Copa do Brasil tem 126 participantes. Os jogos das quatro primeiras fases sao em cidades menores, estadios regionais, contextos onde um gol invalidado por erro arbitral pode definir se um clube continua na competicao ou vai embora. E exatamente nesses jogos, os que mais precisam de correto arbitral, que o VAR não existe.

O argumento da igualdade e uma invercao logica: voce não garante igualdade negando tecnologia pra todo mundo. Voce garante igualdade IMPLEMENTANDO a tecnologia pra todo mundo.

O que acontece sem VAR

Em 2026, ja dez tecnicos foram demitidos em dez rodadas. Parte das pressoes sobre comissoes tecnicas vem de resultados que, com arbitragem adequada, poderiam ter sido diferentes.

Sem VAR nas fases iniciais da Copa do Brasil, cada erro arbitral que elimina um clube vira irreversivel. Nao ha revisao. Nao ha correcao. O gol fantasma, a mao na bola ignorada, o impedimento que nunca existiu decidem a eliminacao de um clube que investiu a temporada inteira naquela vaga.

E isso acontece quatro rodadas inteiras antes que o VAR apareça.

A escolha que a CBF não quer nomear

A CBF poderia resolver o problema de tres formas. Primeira: exigir que jogos de Copa do Brasil, de qualquer fase, sejam disputados em estadios homologados para VAR. Segunda: negociar com parceiros tecnologicos para levar VAR movel a cidades menores (a FIFA ja faz isso em Copas Sub-20 e torneios femininos em infraestrutura inferior a muitos estadios brasileiros). Terceira: reduzir o numero de participantes nas fases iniciais para garantir que todos os jogos tenham condicoes minimas de arbitragem.

A CBF não escolheu nenhuma das tres. Escolheu manter o torneio com 126 clubes, manter jogos em estadios sem condicoes tecnologicas e chamar isso de "igualdade".

O que a CBF realmente escolheu foi o conforto administrativo. E mais facil manter o modelo do que exigir padroes minimos de infraestrutura ou renegociar o formato da competicao.

O que acontece quando o VAR chega

Na quinta fase, quando os times da Serie A entram, o VAR aparece. Coincidencia interessante: e exatamente quando os clubes com mais audiencia, mais poder economico e mais pressao mediatica comecam a jogar que a tecnologia de arbitragem se torna disponivel.

Nao ha acusacao direta nisso. Mas a coincidencia merece ser nomeada.

O futebol dos estadios menores, das cidades do interior, dos clubes com menor audiencia nacional, esse futebol não merece o mesmo nivel de arbitragem? Ou e apenas mais barato e mais simples ignorar?

O paralelo com a profissionalizacao da arbitragem que sempre adiamos

O debate sobre profissionalizacao da arbitragem no Brasil tem decadas. Arbitros salariados, dedicacao exclusiva, treinamento continuo, responsabilizacao por erros graves, tudo isso e discutido ha anos e implementado parcialmente.

O VAR e so a camada tecnologica sobre um problema estrutural mais profundo: o Brasil não investe seriamente em arbitragem porque a arbitragem não tem lobby. Jogadores tem sindicatos. Clubes tem federacoes. Tecnicos tem CBFDT. Arbitros tem a CBF, que e tambem quem os avalia.

O resultado e um sistema onde o VAR chega tarde, parcialmente, e apenas para as fases que importam para os clubes que tem voz.

A pergunta simples que a CBF não responde

Quando a ESPN perguntou diretamente a CBF por que não ha VAR nas fases iniciais, a resposta inicial foi silencio. A justificativa tecnica veio depois, formulada com cuidado.

A pergunta simples e: qual e o prazo para que o VAR esteja disponivel em todas as fases de todas as competicoes da CBF?

Ate hoje, não ha resposta. Nao ha cronograma publico. Nao ha meta. Ha a promessa generica de que a CBF "trabalha para" expandir o VAR "quando possivel".

No futebol brasileiro, "quando possivel" e o mesmo que dizer nunca, ate que alguem force uma decisao concreta.

As quatro primeiras fases da Copa do Brasil continuam sem VAR. E os 126 clubes que disputam essas fases continuam esperando a igualdade que a CBF diz que ja existe.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo