Clube grande não é clube antigo. E projeto.
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Fora da Caixa 2026-04-07 4 min de leitura

Clube grande não é clube antigo. E projeto.

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O Vasco tem historia. O Atletico-MG tem copa. O Botafogo tem campeonato. Nenhum deles tem projeto.

O futebol brasileiro tem um problema serio de definicao. Todo mundo sabe o que e um clube grande -- historia, torcida, titulos. Mas ninguem sabe mais o que e um clube com projeto. E essa e a diferenca que vai definir quem ganha o Brasileirão nos proximos dez anos.

A verdade e simples e ninguem quer falar: historia não bota ponto na tabela. Torcida não cria jogador. Titulo do passado não organiza defesa. O que bota ponto, cria jogador e organiza defesa e projeto. E projeto e raro no Brasil.

O que aconteceu com os grandes

O Botafogo ganhou a Libertadores e o Brasileirão em 2024. Em 2026, esta na zona de rebaixamento. O campeao continental e do nacional caiu para a 15a posicao em menos de dois anos. Isso não acontece com clube que tem projeto. Acontece com clube que teve um ciclo bom e não soube sustentar.

O Atletico-MG ganhou a Libertadores em 2024 e agora briga para não cair. A queda do Atletico apos a Libertadores repete o padrao do proprio Botafogo. E um padrao brasileiro: vence, comemora, desmonta, reconstroi do zero. Sem continuidade, sem acumulacao de conhecimento institucional.

O Vasco e um caso diferente e igualmente grave. A SAF prometida não veio. O investimento que transformaria o clube em potencia ficou no papel. O que sobrou e um clube historico com orcamento de clube medio e ambicao de grande. Esse descompasso produz frustacao, não campeonatos.

O que diferencia quem tem projeto

O Palmeiras tem projeto. Ha dez anos com Abel Ferreira, o clube não reinventou o tecnico, não reinventou o sistema, não reinventou o modelo de contratacao. Acumulou. Aprendeu. Ajustou. O resultado sao onze titulos, lideranca consistente no Brasileirão 2026 com 25 pontos em dez rodadas, e uma identidade que qualquer torcedor reconhece.

O Fluminense de Zubeldía e um caso mais recente mas igualmente claro. Desde que o argentino assumiu, o clube acumulou 46 pontos no periodo -- mais do que qualquer outro time. Bola parada, compacidade, organizacao defensiva. Identidade. Nao e coincidencia que o Fluminense ocupa o segundo lugar com vice-lideranca construida em bola parada. E produto de continuidade.

O Fortaleza nos ultimos tres anos, o Bragantino na ultima decada, o Bahia no Brasileirão 2025 e 2026. Esses clubes não tem a maior torcida. Nao tem a historia mais longa. Mas tem algo que os grandes não conseguem manter: projeto de jogo. E projeto de jogo vira ponto. Ponto vira titulo.

O problema e estrutural

O que impede os clubes grandes de terem projeto? Tres coisas: politica de presidencia, pressao de torcida e falta de autonomia tecnica.

No Brasil, presidentes de clube eleitos por torcida respondem primeiro a pressao da arquibancada, não a planejamento de longo prazo. Quando o time perde tres jogos seguidos, o tecnico cai. Quando o tecnico cai, o trabalho recomeça do zero. O Corinthians e o exemplo mais cristalino: mais de dez trocas de tecnico nos ultimos quatro anos, cada ciclo destruindo o que o anterior construiu. O resultado e um clube sem identidade taticamente reconhecivel.

A torcida não tem culpa. Ela quer vencer agora. O problema e estrutura que cede a essa pressao em vez de educar a expectativa. Clube com projeto comunica o processo. Explica por que o jovem precisa de tempo. Defende o tecnico quando o resultado ainda não veio. Isso e raro no Brasil.

O Brasileirão vai mostrar quem e grande de verdade

Ao final do Brasileirão 2026, o campeonato vai mostrar uma vez mais que grande não e quem tem mais torcida. E quem tem mais consistencia. O Palmeiras vai estar no top 4. O Fluminense tambem. Clubes que respeitam o processo, que não demitem na primeira crise, que mantêm identidade mesmo quando o resultado vacila.

Os clubes que cairao ou que terminarao distante do titulo sao os que tratam projeto como luxo. Como se construir identidade fosse opcional. Como se o tecnico fosse o unico responsavel por resultado numa estrutura que não oferece continuidade.

Clube grande não e clube antigo. E clube que aprende com o que aconteceu e não repete o mesmo erro na temporada seguinte. Pelo que o Brasileirão mostra em 2026, poucos clubes entenderam isso ainda. A tabela não mente.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo