Prancheta
O centroavante puro está desaparecendo. Os dados de 2026 confirmam
## O dado que resume tudo
Nos 8 times que chegaram às quartas de final da Champions League 2025/26, apenas 2 usam centroavante puro como referência titular de forma consistente: Bayern Munich com Harry Kane e Borussia Dortmund com Serhou Guirassy. PSG, Liverpool, Real Madrid, Barcelona, Atletico Madrid e Inter Milan todos jogam com centroavante móvel, falso 9 ou ataque sem referência central fixa.
O número não é coincidência. É a expressão de uma tendência que se consolidou ao longo de uma década. O centroavante puro, o jogador que fica na área, disputa bola aérea, referencia o ataque e finaliza, está desaparecendo dos times de elite.
## Por que o centroavante puro perdeu espaço
A resposta está no sistema defensivo dos adversários. A defesa organizada com linha de três ou quatro é construída para neutralizar a referência central. Os dois zagueiros centrais se especializam em marcar o centroavante. O pivô de queda é preso entre os dois.
When o sistema adversário é construído ao redor de um centroavante fixo, o centroavante fica neutralizado. O antídoto foi mover o atacante: se o camisa 9 sai da área, os zagueiros têm que decidir se seguem (abrindo espaço para o meia) ou ficam (deixando o 9 receber no meio).
Messi foi o primeiro a tornar o modelo globalmente conhecido, no Barcelona de Guardiola entre 2008 e 2012. A diferença é que Messi era um falso 9 de qualidade excepcional: seu talento disfarçava a mudança estrutural. O que Guardiola fez foi usar o talento de Messi para validar um modelo que outros treinadores adotariam com jogadores de menor qualidade individual.
## Os dados de duas décadas
Em 2008, 22 dos 32 times participantes da fase de grupos da Champions usavam centroavante puro como opção titular. O número foi caindo: 19 em 2012, 16 em 2016, 13 em 2020 e 9 em 2024. Em 2025/26, o número está em 8 de 32 times.
A queda de 69% para 25% em 17 anos é a formalização de uma mudança estrutural. O centroavante puro ainda existe nos times de elite, mas está em minoria expressiva.
O Brasileirão acompanha a tendência, mas com atraso de 5 a 7 anos em relação à Europa. Em 2026, 11 dos 20 times da Série A ainda jogam com centroavante de referência como titular principal. Na Europe em 2026, o número equivalente é de 8 em 20 (40%) nas 5 principais ligas.
## Os que resistem: por que Kane e Guirassy ainda funcionam
Harry Kane e Serhou Guirassy são os dois exemplos mais relevantes de centroavante puro que ainda opera com eficiência de elite em 2025/26. A razão pelo qual os dois funcionam onde outros falham é a combinação de qualidade técnica com mobilidade: eles são centroavantes de área que também sabem receber fora dela.
Kane tem 0,68 xG por 90 minutos na Champions esta temporada, o maior entre centroavantes que jogam com linha de quatro adversária de forma consistente. O inglês usa a inteligência de movimentação para escapar da marcação antes que ela se organize: ele inicia o movimento antes do passe, não depois.
Guirassy usa mais a força física: 72% de duelos ganhos dentro da área, segundo maior entre centroavantes da Champions. O guineense não escapa da marcação, enfrenta e vence. A diferença para o centroavante puro convencional é que Guirassy também recebe de costas para o gol e distribui, participando da construção.
## O que os times usam no lugar
A substituição do centroavante puro pelos times de elite em 2026 segue três modelos:
O primeiro é o falso 9 que recai para criar: Lautaro Martínez no Inter, Savarino no Fluminense, Lewandowski no Barcelona (com cada vez mais mobilidade aos 37 anos). O jogador usa a posição de centroavante para criar espaço mas não é referência de área.
O segundo é o atacante sem posição definida: sistemas onde os três da frente rodam sem função fixa. PSG com Doué, Dembélé e Kvaratskhelia é o exemplo mais extremo: nenhum dos três é centroavante, e o time funciona sem um.
O terceiro é o atacante de largura que finaliza: extremos que chegam à área para chutar. Vinícius Jr. no Brasil, Lamine Yamal no Barcelona, Adeyemi no Dortmund. Eles marcam gols como centroavantes mas operam como extremos.
## A crise da posição 9 na seleção brasileira
No Brasil, a escassez de centroavante de seleção tem nome e data. Em 2024, a seleção ficou mais de 12 meses sem gol de centroavante de ofício. O ciclo de Robinho, Adriano, Fred e Gabriel Jesus deixou um vazio que Endrick tenta preencher.
Endrick, com 20 anos, não é um centroavante puro. É um atacante que joga centralizado mas tem perfil de mobilidade. Isso não é um problema: é a adequação ao futebol que está sendo jogado. A questão é que o treinador precisa entender a diferença para não pedir ao Endrick o que ele não é.
## Diagnóstico
O centroavante puro não vai desaparecer completamente. Kane e Guirassy provam que o modelo ainda funciona quando executado por jogadores com qualidade específica para o papel. Mas no futebol de elite de 2026, ele é exceção, não regra. Os times que ainda investem no modelo sem ter um Kane ou Guirassy estão usando um sistema obsoleto contra adversários que já encontraram a resposta.