O calendário do futebol brasileiro está destruindo jogadores
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Fora da Caixa 2026-04-07 3 min de leitura

O calendário do futebol brasileiro está destruindo jogadores

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O calendario do futebol brasileiro esta destruindo jogadores. Nao e figura de linguagem, e o que os dados de lesao mostram, o que os medicos de clube confirmam, e o que qualquer pessoa que assiste futebol pode observar no segundo turno do Brasileirão quando os jogadores chegam com lesoes musculares que não existiriam se tivessem descansado.

E ninguem quer resolver porque o problema do calendario envolve dinheiro, e quando envolve dinheiro, o futebol brasileiro tem dificuldade de fazer a escolha certa.

O que o calendario do futebol brasileiro pede de um jogador

Um jogador de clube que disputa Brasileirão, Copa do Brasil e Libertadores pode jogar 70, 75 partidas em um ano. Adicionando jogos da seleção, passa de 80 em alguns casos.

O padrao europeu de topo e de 50-60 partidas por temporada, e ja e considerado alto. O Bayern de Munique, o Real Madrid, o Manchester City sistematicamente rotacionam elencos para gerenciar carga de jogos. Tecnicos europeus brigam com as confederacoes quando o calendario de selecoes add mais jogos.

No Brasil, o debate sobre carga de jogos e tratado como reclamacao de clube em vez de problema estrutural de saude do atleta.

O que as lesoes revelam

O Brasil perdeu Rodrygo para a Copa de 2026 por lesao no ligamento cruzado. A lesao aconteceu em partida de alta intensidade no final de uma temporada extenuante.

Nao e possivel afirmar com certeza que o calendario causou a lesao. E possivel afirmar que calendario extenso aumenta a fadiga muscular, e que fadiga muscular aumenta o risco de lesao em situacoes de alta demanda fisica. A correlacao existe na literatura medica, e e sistematicamente ignorada pela gestao do futebol brasileiro.

Por que o calendario não muda

Cada jogo a mais significa televisao a mais. Televisao significa dinheiro. Dinheiro significa que a Globo, a Record, o SBT, os streamers pagam contratos maiores por mais jogos. Os clubes querem mais jogos para gerar mais receita. As confederacoes querem mais jogos para distribuir mais direitos de transmissao.

O jogador, que e quem sofre a consequencia fisica, não tem voz nessa negociacao. No modelo atual, o jogador e o recurso que gera receita, não o ator que define como o recurso e usado.

A Liga Forte Uniao e outros movimentos de clubes brasileiros tentaram criar mecanismos de governanca que dessem mais poder aos clubes. Mas poder dos clubes para negociar calendario não e o mesmo que protecao do atleta, pode ser apenas redistribuicao de quem controla o calendario excessivo.

O que precisaria mudar para resolver o problema

Limite real de partidas por temporada. Aplicado e monitorado. Com penalidade para clubes que violam o limite, transferindo os custos de lesao do jogador para quem causa as condicoes que levam a lesao.

Representacao dos jogadores nas decisoes de calendario. O Sindicato dos Atleticos Profissionais de Futebol existe, mas sem poder real de negociacao com CBF e Liga.

E reconhecimento de que jogador lesionado não gera receita. O raciocinio de curto prazo de colocar mais jogos não funciona no longo prazo quando o produto que gera a receita, o futebol de qualidade praticado por jogadores saudaveis, se deteriora.

O Brasileirão de 2026 vai ser jogado. Os 38 times vao jogar 38 rodadas. A Copa do Brasil vai acontecer. A Libertadores vai acontecer. O calendario vai continuar sendo excessivo.

E no segundo turno, quando os jogadores chegam visivelmente cansados, quando as lesoes se multiplicam, quando o futebol assistido parece uma sombra do que era em abril, alguem vai fingir surpresa. Como todo ano.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo