O Brasileirão agora vai de janeiro a dezembro. Isso é bom?
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Fora da Caixa 2026-04-06 4 min de leitura

O Brasileirão agora vai de janeiro a dezembro. Isso é bom?

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O Brasileirão de 2026 vai durar de janeiro a dezembro. 155 jogos. Uma pausa de 50 dias para a Copa do Mundo. Depois a Copa de novo até dezembro.

A ideia era boa no papel: mais futebol, mais calendário organizado, fim das reclamações sobre concentração de jogos no segundo semestre. Na prática, o que está acontecendo é exatamente o oposto do que os reformadores prometeram.

O paradoxo do calendário que foi feito para ajudar e está prejudicando

O Brasileirão começou em janeiro. Janeiro. Com equipes recém-formadas, jogadores em pré-temporada, reforços que ainda não chegaram, outros que acabaram de sair. O resultado foi o que qualquer pessoa com memória poderia prever: jogos de baixíssima qualidade nas primeiras rodadas, times mal preparados, resultados que não refletem o potencial de nenhum clube.

E os 10 técnicos demitidos em 10 rodadas? Parte desse número está diretamente ligado ao início antecipado. Clubes não tiveram tempo de consolidar elencos, as demissões vieram mais rápido, a pressão foi imediata.

Isso era previsível. Foi previsto. E foi ignorado.

O problema dos 155 jogos

Mais jogos parecem mais futebol. Na teoria, mais receita para os clubes, mais exposição para as competições, mais entretenimento para o torcedor.

Na prática, mais jogos num calendário que já era denso significa mais lesões, mais jogadores exauridos, mais queda de qualidade no segundo semestre quando a fadiga acumula.

O volume de jogos foi identificado como um dos fatores centrais nas lesões de jogadores brasileiros. Rodrygo, Vini Jr., Neymar, Endrick, todos passaram por problemas físicos em períodos de alta densidade de partidas. O calendário de 2026 adicionou mais jogos a um problema que já estava diagnosticado.

A questão não é se mais jogos são possíveis. É se mais jogos são bons. E a resposta, para jogadores que também precisam estar prontos para uma Copa do Mundo em junho, é não.

A pausa que salva e o retorno que complica

A pausa de 50 dias para a Copa do Mundo é o ponto mais razoável do calendário. Permite que os clubes descansem elenco enquanto seleções disputam o torneio. Garante que, quando o Brasileirão voltar, os jogadores retornem de um período de competição intensa sem a obrigação imediata de disputar jogo de Série A.

O problema é o que vem antes e o que vem depois.

Antes: jogadores que foram às quartas ou semifinais da Copa chegam de volta em julho exauridos. Precisam de período de descanso. Os clubes, com jogos acumulados de um campeonato que pausou, não podem esperar.

Depois: o Brasileirão retorna com um calendário comprimido para encerrar até dezembro. As rodadas se acumulam. Os jogos sem descanso adequado aumentam o risco de lesão exatamente no segundo semestre, quando as competições definidoras acontecem.

O calendário foi desenhado para organizar. Na prática, criou uma nova versão dos problemas que prometia resolver.

O que a Europa faz diferente

As principais ligas europeias têm janelas de mercado bem definidas, competições com prazo de início e término respeitados, e um entendimento de que o produto "jogo de futebol de qualidade" depende de jogadores descansados e bem preparados.

A Premier League não começa em janeiro porque a temporada anterior terminou em maio e os jogadores precisam de pré-temporada real. O Brasileirão começou em janeiro de 2026 porque havia pressão para que o calendário "durase mais".

A qualidade do espetáculo é a razão pela qual o torcedor paga ingresso e assiste televisão. Quando a qualidade cai porque o calendário é denso demais, o produto se deprecia. E produto depreciado paga menos para os clubes do que o produto premium que poderia existir com menos jogos e mais qualidade.

O que precisa mudar

O calendário de 2026 é um experimento. Parte dele funciona, parte não funciona. O Brasileirão o ano inteiro, em princípio, é positivo para organização. O início em janeiro, com elencos incompletos, é negativo. Os 155 jogos são excessivos. A pausa para a Copa é necessária e adequada.

Mas o futebol brasileiro tem histórico de manter o que não funciona porque mudar gera conflito de interesses. Vai ser interessante observar, no segundo semestre, quando as consequências do calendário aparecerem em forma de lesões e qualidade reduzida, se o diagnóstico vai ser honesto ou se vai ser mais fácil demitir o técnico.

O carrossel de treinadores é sintoma da falta de projeto. O calendário excessivo é a estrutura que alimenta o caos.

Um não existe sem o outro.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo