Brasil e penaltis: o problema que ninguém quer treinar
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Fora da Caixa 2026-04-07 3 min de leitura

Brasil e penaltis: o problema que ninguém quer treinar

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O Brasil perdeu dois mundiais nos penaltis. 1994, venceu nos penaltis. 1998, perdeu nos penaltis para a Franca, mas o jogo todo foi problema antes dos penaltis. 2022, perdeu nos penaltis para a Croacia.

O Brasil tem um problema documentado com cobrancas de penalti em grandes competicoes. E quase ninguem trata isso como o que e: um problema tecnico e mental que pode ser trabalhado.

O que a ciencia diz sobre penaltis

Penalti não e sorte. E habilidade sob pressao, e habilidade se treina. Os estudos sobre cobranca de penalti em Copa do Mundo mostram que a taxa de conversao varia significativamente entre selecoes, e que as selecoes que mais convertem tem programas especificos de preparacao para essa situacao.

A Alemanha e o exemplo mais estudado. Nos anos em que a Alemanha venceu penaltis decisivos, havia um programa de preparacao especifico: os cobradeiros eram escolhidos com antecedencia, treinavam a cobranca sob condicoes simuladas de pressao, e tinham protocolo claro de ordem de cobranca independente de quem estivesse em forma no momento.

A Argentina de 2022 teve Emiliano Martinez, o goleiro que virou elemento de pressao psicologica contra os cobradores adversarios. A Argentina venceu a final nos penaltis. O Martinez não parou todos, mas desestabilizou os adversarios o suficiente para que a Argentina convertesse o suficiente.

O que o Brasil faz errado na preparacao de penaltis

A decisao de quem cobra penalti no Brasil e frequentemente tomada no momento, baseada em quem esta em campo, quem se voluntaria, quem tem mais coragem aparente naquele instante.

Coragem não e preparacao. Jogador que se voluntaria por coragem no momento de pressao pode errar por falta de tecnica especifica. Jogador que treinou a cobranca por semanas, que sabe exatamente qual canto vai bater, que tem o protocolo internalizado, converte com mais consistencia, independente do nivel de pressao no momento.

O Brasil de Ancelotti precisa definir agora, não em junho, quem sao os cinco cobradores de penalti da Copa de 2026. E precisa treinar essa sequencia de forma intensa nos meses de preparacao.

O que o goleiro brasileiro pode fazer diferente

Ederson e Alisson sao dois dos melhores goleiros do mundo. Ambos tem reflexo, leitura de jogo, capacidade de defesa em jogos regulares. Mas em penaltis, o goleiro precisa de algo adicional: capacidade de desestabilizar o cobrador.

Martinez faz isso com comportamento, provoca, demora, cria incerteza. E completamente legal dentro das regras. Nao e sobre antidesportivismo, e sobre usar a psicologia do momento como recurso competitivo.

O goleiro brasileiro que for ao Mundial de 2026 precisa ter um plano especifico para cada posivel cobrador adversario. Existem bancos de dados de onde cada jogador bate penalti. Esses dados existem para todos os selecoes importantes. O Brasil tem acesso a esses dados. A questao e se vai usar.

O que muda se o Brasil resolve o problema de penalti

Em 2022, o Brasil perdeu para a Croacia nos penaltis. Se tivesse vencido, teria enfrentado a Argentina nas semifinais. A Copa de 2026 pode chegar a mesma situacao, Brasil versus grande adversario em jogo que vai para penaltis.

A diferenca entre preparacao e improvisacao em penalti pode ser a diferenca entre titulo e eliminacao. Essa diferenca e trabalhavel. Ancelotti sabe disso, trabalhou com Cristiano Ronaldo, com Benzema, com Modric em situacoes de pressao maxima no Real Madrid.

O Brasil tem a qualidade. O que falta e o plano. E plano de penalti se faz agora, não na prorrogacao.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo