Prancheta
Brasil de Ancelotti: o pragmatismo que pode valer o hexa
## A escolha tática central
Carlo Ancelotti assumiu a Seleção Brasileira em maio de 2025 e fez uma escolha que gerou debate imediato: resgatar o 4-2-4, sistema que definiu o futebol brasileiro dos anos 50 e 60.
Na prática, o modelo tem dois volantes fixos, quatro atacantes com liberdade de movimentação e laterais com função ofensiva. A leitura de Ancelotti é que o Brasil tem material humano para sustentar essa oferta ofensiva sem sacrificar a coerência defensiva.
Os resultados preliminares indicam que o raciocínio está correto. Na goleada sobre a Coreia do Sul, o esquema produziu mobilidade entre as linhas, pressing coordenado e conversão em bola parada.
## A dupla de volantes como âncora
Casemiro e Bruno Guimarães são os intocáveis do meio-campo segundo a análise pré-Copa. A função é clara: filtrar a transição defensiva e garantir que os quatro atacantes tenham cobertura atrás.
Casemiro opera como destruidor clássico, limitando linhas de passe e cobrindo o espaço entre as linhas. Bruno Guimarães tem perfil mais técnico, com saída de bola e capacidade de carregar em situações de pressão.
A complementaridade é necessária. Com quatro atacantes, a dupla de volantes precisa ser capaz de operar em bloco quando o adversário tem a bola, sem depender de ajuda dos setores à frente.
## A defesa
Marquinhos, Gabriel Magalhães e Éder Militão formam a espinha dorsal. Danilo, pela versatilidade, foi confirmado por Ancelotti como opção.
Os três zagueiros centrais têm em comum a capacidade de sair jogando. No modelo de Ancelotti, a construção começa pela defesa, e a linha precisa ser confortável com a bola nos pés sob pressão.
## O risco do 4-2-4
O problema estrutural do sistema é conhecido. Quando a Seleção perde a bola em posição avançada, a transição defensiva depende de dois volantes para cobrir a distância até a linha defensiva.
Contra adversários com dois atacantes velozes, o corredor central fica exposto. A Coreia do Sul não explorou isso. Portugal, Alemanha ou França explorariam.
A pergunta da Copa é se Casemiro e Bruno Guimarães conseguem cobrir esse espaço consistentemente em jogos eliminatórios de 90 minutos contra seleções com mais velocidade no contra-ataque.
## A perda de Rodrygo
A saída de Rodrygo por lesão foi o golpe mais significativo na preparação. O jogador do Real Madrid é o perfil de ponta com capacidade de criar e finalizar que o 4-2-4 exige dos extremos.
O substituto terá que replicar a mobilidade e a criação sem a mesma qualidade técnica. Isso reduz as opções de variação tática em partidas nas quais o jogo fecha.
## O diagnóstico
O Brasil chega à Copa 2026 com a proposta tática mais ousada das últimas quatro copas. Ancelotti apostou em ataque em detrimento de compactação.
Se o meio-campo e a defesa suportarem a carga, o potencial ofensivo é suficiente para chegar à final. Se os espaços nas transições forem explorados por adversários velozes, o mesmo sistema que produz goleadas poderá gerar eliminações precoces.