Cinco meses, três técnicos: a crise do Botafogo em dados
Wikimedia Commons / Cezinha Andrade
Leitura Tática 2026-04-07 4 min de leitura

Cinco meses, três técnicos: a crise do Botafogo em dados

Rafael Teixeira
Jornalista Esportivo

O Botafogo foi campeão do Brasileirão 2024 e da Libertadores no mesmo ano. Em 2026, dez rodadas completas, o clube ocupa a 15ª posição com doze pontos, a apenas três da zona de rebaixamento. Três técnicos em cinco meses. O dado mais revelador não está na tabela. Está no que os números mostram sobre o que aconteceu com o sistema que foi campeão.

Em 2024, o Botafogo de Artur Jorge tinha 38,1 pressões por jogo no campo adversário, o segundo maior índice do Brasileirão naquela temporada. Em 2026, o índice caiu para 21,7. É uma queda de 43% na intensidade de pressing. O time que era identificado pelo gegenpressing agora tem um dos menores índices de pressing alto do campeonato.

O que foi perdido com as saídas

A explicação começa nas saídas. Thiago Almada, Luiz Henrique, Marlon Freitas, Igor Jesus. Quatro jogadores que eram centrais no sistema de Artur Jorge. Almada organizava o pressing alto pelo corredor esquerdo. Luiz Henrique era o extremo que iniciava a pressão no corredor direito. Freitas era o motor de marcação do meio-campo. Igor Jesus era o centroavante que pressionava os zagueiros adversários como primeiro obstáculo defensivo.

Os quatro saíram. O Botafogo vendeu bem. Os números das transferências somam R$ 420 milhões. Mas o time que ficou é estruturalmente diferente do que foi campeão. Os substitutos têm perfis distintos. E nenhum dos três técnicos que passaram em 2026 conseguiu construir um sistema coerente com o elenco disponível.

Os três sistemas em dez rodadas

O primeiro técnico de 2026, Renato Gaúcho, chegou com proposta de jogo mais direto. O 4-4-2 com dois centroavantes usou Tiquinho e Júnior Santos em dupla de ataque. O sistema gerou 1,4 xG por jogo nas primeiras cinco rodadas, abaixo da média do Brasileirão de 1,7. Renato durou cinco jogos. Saiu com aproveitamento de 33%.

O interino Cláudio Caçapa manteve o 4-4-2 mas tentou recuperar a estrutura de pressing. Os dados das duas rodadas sob Caçapa mostram 28,3 pressões por jogo, crescimento sobre o período de Renato mas ainda abaixo da identidade do título. Caçapa ficou dois jogos.

O terceiro técnico, o português Vasco Seabra, chegou na sétima rodada com proposta de 4-3-3. O sistema mudou o posicionamento dos jogadores mas não resolveu o problema central: o meio-campo do Botafogo não tem um jogador com perfil de organização de pressing. Seabra está há três rodadas. O aproveitamento é de 44%.

O que os dados revelam

O dado mais revelador da crise do Botafogo é a comparação entre o xG gerado e o xG concedido. Em 2024, o Botafogo tinha diferença de xG de mais 0,8 por jogo, uma das mais altas do campeonato. Em 2026, a diferença é de menos 0,3 por jogo. O time passou de criador de chances para cedente de chances.

O índice de conduções progressivas caiu de 38,4 por jogo em 2024 para 24,1 em 2026. O de passes progressivos caiu de 44,2 para 31,7. Esses são dados de progressão de bola, que medem a capacidade do time de levar a bola para frente em situação de controle. A queda em ambas as métricas significa que o Botafogo chegou ao campo adversário 37% menos vezes em 2026 do que em 2024.

O problema não é o técnico. É o elenco. Com as saídas, o Botafogo perdeu os jogadores que executavam o sistema. O que ficou não tem o mesmo perfil físico e técnico para o pressing alto. Nenhum técnico vai recuperar o pressing de 2024 com esse grupo de jogadores.

A questão financeira

O Botafogo é clube mais valioso do futebol brasileiro em 2025, com avaliação de mercado acima de R$ 2 bilhões após a SAF com John Textor. O investimento existe. O que falta é direção esportiva.

O clube vendeu os jogadores que eram o sistema e não comprou os substitutos com perfil equivalente. A janela de transferências de janeiro de 2026 trouxe oito jogadores. Nenhum dos oito tem o perfil de pressing que Almada e Freitas tinham. O dado de pressing é a consequência direta dessa decisão.

O modelo de SAF do Botafogo, como o do Vasco com 777 Partners, enfrentou o problema clássico das transições aceleradas: o dinheiro chegou antes da estrutura esportiva estar pronta para gastá-lo com critério. O resultado é instabilidade técnica e queda de desempenho no momento em que o clube deveria estar consolidando um ciclo.

O que precisa mudar

A questão tática do Botafogo em 2026 é definição de identidade. O time não sabe o que quer ser. O pressing alto de 2024 não existe mais. O jogo direto de Renato não funcionou. O 4-3-3 de Seabra está em construção. Com três sistemas em dez rodadas, os jogadores não têm automatismos.

O dado que resume a crise: o Botafogo tem o maior índice de erros de posicionamento defensivo do Brasileirão 2026, medido pela distância média entre a linha defensiva e o ponto de finalização adversária no momento do chute ao gol, 14,2 metros. A média do campeonato é 10,1 metros. Quando o adversário finaliza, os defensores do Botafogo estão 4 metros mais distantes do atacante do que a média do campeonato.

É a fotografia de um time sem sistema. Não de um time ruim. O talento está lá. O sistema não está.

Para contexto sobre a instabilidade técnica no Brasileirão, leia a análise das dez demissões em dez rodadas e o diagnóstico da queda do Botafogo campeão.

Rafael Teixeira Jornalista Esportivo

Rafael Teixeira tem 34 anos e nasceu em Goiânia. Formado em Educação Física pela UFG, trabalhou como analista de performance no Goiás EC entre 2018 e 2022, onde participou do acesso à Série A em 2018.... Ler perfil completo