Leitura Tática
Atlético-MG 2026: o que muda de Milito para Cuca e por que o trabalho simples é difícil
## A troca de treinadores
Atlético Mineiro demitiu Gabriel Milito no final de 2025 e contratou Cuca para a quarta passagem do treinador pelo clube. O argentino deixou o Galo com 62 partidas, 23 vitórias, 20 empates e 19 derrotas. O aproveitamento de 56% foi abaixo das expectativas de um clube que havia vencido a Libertadores em 2021.
Cuca chegou com a promessa explícita: menos improvisação e mais simplicidade. A frase do treinador na apresentação é reveladora do diagnóstico que ele fez do time: trabalhará com o time em funções que cada jogador consegue executar, sem forçar o atleta em posições que não são naturais.
A crítica direta ao trabalho de Milito não precisou ser dita. O argentino havia improvisado Scarpa na ala direita do 3-4-3, posição que o meia nunca havia ocupado de forma regular. O jogador produziu, mas com inconsistência de posicionamento defensivo que custou pontos em jogos contra times de transição rápida.
## O sistema de Milito vs. o de Cuca
Milito usava 3-4-3 com três zagueiros e dois wing-backs de alto volume ofensivo. O sistema exigia que os wing-backs cobrissem toda a linha lateral tanto em ataque quanto em defesa, demanda física muito alta para uma liga longa como o Brasileirão.
Cuca opera com 4-4-2 ou 4-3-3 dependendo do adversário. A mudança estrutural mais importante é o retorno à linha de quatro, que reduz o esforço físico dos laterais e aumenta a cobertura defensiva nos corredores. O Galo concedeu em média 1,8 xG por jogo com Milito nos últimos 3 meses da temporada 2025. Com Cuca, o número caiu para 1,2 nas primeiras 8 rodadas de 2026.
## O meio-campo: o problema que permanece
O Atlético-MG tem qualidade nos extremos e no ataque, mas ainda não resolveu o meio-campo. O clube tem Battaglia, Otávio e Zaracho como opções de volante e meia, mas nenhum dos três reúne as características de um pivô que organize e recupere ao mesmo tempo.
Battaglia é o mais seguro na recuperação: 7,1 por 90 minutos, quarto entre os volantes do Brasileirão. Mas o argentino é limitado na progressão: 3,2 passes progressivos por 90, abaixo da média para um titular de elite.
Otávio, mais ofensivo, tem 6,8 passes progressivos por 90, mas apenas 4,3 recuperações. A opção por um ou pelo outro define o perfil do jogo: com Battaglia, o Galo é mais defensivo e compacto. Com Otávio, é mais fluido mas exposto na transição.
Cuca usou Battaglia nos 4 primeiros jogos. Nas últimas 4 rodadas, a variação foi por jogo, usando o perfil mais defensivo em casa e o mais ofensivo fora. O dado de aproveitamento com cada configuração é: Battaglia titular = 67% (8 pontos em 12 possíveis). Otávio titular = 56% (5 pontos em 9 possíveis).
## O ataque: Hulk não está mais, mas a qualidade permanece
O Atlético-MG de 2026 não tem mais Hulk, que se aposentou no final de 2025. A ausência do atacante retirou um referência de finalizações do bloco médio e de bola parada. Os dados de Hulk no Galo nos últimos dois anos incluíam 0,41 xG por 90 minutos em cobranças de falta e escanteios.
O substituto natural é Paulinho, centroavante da base. O jovem de 21 anos tem perfil mais móvel que Hulk, com mais corridas nas costas da defesa e menos presença física na bola aérea. Os dados de Paulinho nas primeiras 8 rodadas: 0,38 xG por 90, 3,7 finalizações, 2,1 gols. O número de gols é alto para 8 rodadas, o que sugere que a eficiência está acima do esperado.
Varindas, o segundo atacante do 4-4-2 quando Cuca usa dois centroavantes, complementa com perfil diferente: mais lento, mais de área, melhor na bola aérea. Nos 3 jogos em que os dois foram titulares juntos, o Galo marcou 7 gols.
## A posição na tabela
O Atlético-MG está na sétima posição com 13 pontos em 9 rodadas, aproveitamento de 48%. Está distante do Palmeiras, mas a 4 pontos do G4. Com a densidade do calendário de abril e a instabilidade dos times à frente, a posição pode mudar.
Cuca, em suas passagens anteriores pelo Galo, normalmente encontrou o ritmo ideal entre a 8ª e a 12ª rodada. O padrão histórico indica que o time começa a crescer exatamente neste ponto do campeonato.
## Diagnóstico
A mudança de Milito para Cuca resolveu o problema da improvisação posicional e melhorou a organização defensiva. O problema do meio-campo ainda não tem solução definitiva. A campanha do Galo em 2026 vai depender de qual Battaglia aparecer: o que recupera e perdeu a bola uma vez, ou o que recupera e não sabe o que fazer depois.