Prancheta
Argentina na Copa 2026: o sistema sem Di Maria e com Messi em dúvida
## O problema real
A Argentina entra em 2026 como campeã mundial vigente e, ao mesmo tempo, enfrenta a transição geracional mais complexa da história recente do futebol sul-americano. Ángel Di Maria se aposentou da seleção após a Copa América de 2024. Messi completará 39 anos durante o torneio e, em março de 2026, Scaloni afirmou que a decisão de jogar ou não é do próprio jogador.
Essa incerteza não é dramatização. É um problema tático real que exige planejamento para dois cenários completamente diferentes.
## O 4-3-3 base e a dependência de Messi
O sistema de Scaloni na Copa de 2022 e na Copa América de 2024 foi construído em torno de uma premissa: Messi recebendo em espaços entre as linhas, com Julián Álvarez como centroavante de movimento e dois extremos servindo como referências de largura.
Di María ocupava o corredor direito. A combinação entre Di María, Messi e Mac Allister no half-space esquerdo criava sobrecargas específicas que nenhum adversário conseguiu neutralizar com consistência em 90 minutos. Os dados de xG das duas competições mostram a Argentina com número de situações de finalização acima de 2,1 por jogo.
Sem Di María e com Messi como incógnita, a estrutura ofensiva precisa ser recalibrada.
## O que Scaloni tem disponível
Lautaro Martínez é o centroavante titular sem contestação e vem de temporada histórica pelo Inter de Milão. Julián Álvarez segue como alternativa de movimento ou segunda referência. No corredor que Di María ocupava, Giuliano Simeone, filho do técnico do Atlético de Madrid, emergiu como opção com características distintas: velocidade, drible em espaço aberto, mas menos leitura de jogo posicional.
Thiago Almada é outro nome na lista para o meio-campo com visão de jogo e capacidade de progressão pela esquerda. Mac Allister e De Paul seguem como bloqueadores do setor central, com capacidade de construção.
## O cenário sem Messi
Se Messi não for, Scaloni precisará de alguém para ocupar o half-space esquerdo. Nenhum jogador disponível reproduz a função com a mesma profundidade. A solução mais provável é um meio-campo mais compacto, com três jogadores de característica diferente das de Messi: mais corredores de bola, menos criadores de espaço.
O sistema poderia migrar para um 4-2-3-1 com De Paul e Mac Allister como dupla de volantes, Almada como meia-atacante central e Giuliano Simeone e Lautaro nos outros dois postos da segunda linha. É um sistema mais vertical e menos técnico do que o da Copa de 2022.
O risco é perder o controle posicional. A Argentina de Scaloni nunca foi uma equipe de posse de bola elevada, mas usava o posicionamento para criar superioridades locais. Sem o nível de leitura de Messi, essas superioridades precisam ser geradas de outro modo.
## O cenário com Messi
Se Messi confirmar presença, Scaloni terá o sistema mais rodado da competição em termos de automatismos. O risco é diferente: gestão física. Com 39 anos durante o torneio, Messi precisará ser preservado em determinados jogos. A rotação de um ativo decisivo é um desafio para qualquer treinador.
O modelo utilizado na Copa América de 2024 já mostrava Messi em papel mais econômico no esforço defensivo, compensado pelos companheiros. Esse modelo pode ser ampliado em 2026.
## O que os adversários vão explorar
Independentemente da presença de Messi, a Argentina tem vulnerabilidade conhecida: a linha defensiva alta. Leandro Paredes e os zagueiros operam bem em campo elevado, mas ficam expostos quando adversários com velocidade exploram o espaço entre a linha e o goleiro Emiliano Martínez.
França, Inglaterra e Espanha têm atacantes com velocidade suficiente para explorar esse sistema. O ajuste defensivo de Scaloni para lidar com transições rápidas será tão importante quanto a solução ofensiva sem Di María.
## Conclusão
A Argentina que vai a 2026 é tecnicamente superior à de 2022 em pontos específicos do elenco renovado. O problema central é de identidade: Scaloni precisa definir qual sistema usa se Messi não jogar, e isso exige testes reais com os titulares que vão a campo nos jogos eliminatórios.