Lionel Scaloni tem 46 anos. Não ganhou nada como jogador de seleção. Assumiu a Argentina em 2018, ninguém apostava nele, e ganhou a Copa América 2021, a Copa do Mundo 2022 e a Copa América 2024.
O Brasil não precisa copiar a Argentina. Mas precisar aprender com Scaloni não é derrota. É inteligência.
O que Scaloni fez que ninguém esperava
Primeiro: criou identidade sem depender só de Messi. A Argentina de 2022 era um time, não Messi e dez acompanhantes. De Paul corria pelo corredor pelo tempo inteiro. Mac Allister distribuía. Enzo Fernandez chegava. Na final, Di Maria assumiu a responsabilidade do gol mais importante e marcou.
Messi foi fundamental. Mas o time funcionava sem que Messi precisasse resolver tudo sozinho. E isso é o que diferencia seleção boa de seleção com um grande jogador.
Segundo: disciplina tática sem rigidez. Scaloni alterna entre 4-3-3, 4-2-3-1, 4-4-2 dependendo do adversário. Mas a identidade não muda: pressão organizada, posse inteligente, transições rápidas. O sistema varia, a identidade permanece.
Terceiro: gestão de vestiário. Ninguém saiu da Argentina reclamando de Scaloni. Jogadores que não eram titulares aceitavam o papel e entregavam quando eram acionados. Rodrigo de Paul não questiona porque Julian Alvarez é escalado. Mac Allister não vai à imprensa reclamar. Há hierarquia funcional.
O que o Brasil nunca resolveu que a Argentina resolveu
Liderança coletiva em campo.
O Brasil tem líderes individuais: Marquinhos é capitão, Raphinha é líder no vestiário do Barcelona, Vini Jr. é o mais habilidoso. Mas em campo, quando o jogo fica difícil, quem assume? Quem faz o time funcionar quando os criativos estão bloqueados?
A Argentina tem Emiliano Martinez no gol, um dos goleiros mais competitivos do mundo, provoca, dialoga, organiza. Tem Cristian Romero e Lisandro Martinez na defesa, dois jogadores que brigam por centímetro como se fosse o último. Tem De Paul correndo por todos nos momentos críticos.
O Brasil tem Raphinha. E alguns candidatos. Mas o coletivo que a Argentina demonstrou em 2022, aquela mentalidade de não se render, de virar quando parece impossível, o Brasil não demonstrou em Copa há muito tempo.
O que Ancelotti pode pegar da Argentina e aplicar
Ancelotti conhece o modelo. Treinou no Real Madrid jogadores que foram fundamentais na Argentina de 2022, Valverde, que conhece a pressão de grande competição, jogadores que passaram pelo Madrid.
O que Ancelotti precisa construir nos próximos meses é o que Scaloni levou dois anos para consolidar: uma cultura coletiva dentro do grupo. Que Estevão saiba qual é o papel dele mesmo que não seja o gol. Que a ausência de Rodrygo não desestabilize a coesão do elenco. Que Marquinhos como capitão seja o líder que o jogo precisa, não só o líder que aparece nas entrevistas.
O que vai ser diferente
A Argentina em 2026 também tem problemas. Messi tem 38 anos. Os laterais seguem sendo o calcanhar de Aquiles do sistema. A defesa do título é sempre mais difícil do que a conquista.
Mas Scaloni já provou que sabe adaptar. Em 2021, 2022 e 2024, cada competição trouxe um conjunto diferente de obstáculos, e a Argentina encontrou respostas diferentes para cada um.
O Brasil de Ancelotti vai precisar da mesma capacidade de adaptação. Cinco Copas seguidas sem semifinal não é acidente. É um padrão. E padrões se quebram com cultura nova, não com talento que já existia.
Scaloni ensinou isso para o mundo do futebol. Ancelotti foi pago para aprender a lição.