Scaloni ensinou. Ancelotti foi pago para aprender
Foto: Wikimedia Commons / AFA
Fora da Caixa 2026-04-07 3 min de leitura

Scaloni ensinou. Ancelotti foi pago para aprender

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Lionel Scaloni tem 46 anos. Não ganhou nada como jogador de seleção. Assumiu a Argentina em 2018, ninguém apostava nele, e ganhou a Copa América 2021, a Copa do Mundo 2022 e a Copa América 2024.

O Brasil não precisa copiar a Argentina. Mas precisar aprender com Scaloni não é derrota. É inteligência.

O que Scaloni fez que ninguém esperava

Primeiro: criou identidade sem depender só de Messi. A Argentina de 2022 era um time, não Messi e dez acompanhantes. De Paul corria pelo corredor pelo tempo inteiro. Mac Allister distribuía. Enzo Fernandez chegava. Na final, Di Maria assumiu a responsabilidade do gol mais importante e marcou.

Messi foi fundamental. Mas o time funcionava sem que Messi precisasse resolver tudo sozinho. E isso é o que diferencia seleção boa de seleção com um grande jogador.

Segundo: disciplina tática sem rigidez. Scaloni alterna entre 4-3-3, 4-2-3-1, 4-4-2 dependendo do adversário. Mas a identidade não muda: pressão organizada, posse inteligente, transições rápidas. O sistema varia, a identidade permanece.

Terceiro: gestão de vestiário. Ninguém saiu da Argentina reclamando de Scaloni. Jogadores que não eram titulares aceitavam o papel e entregavam quando eram acionados. Rodrigo de Paul não questiona porque Julian Alvarez é escalado. Mac Allister não vai à imprensa reclamar. Há hierarquia funcional.

O que o Brasil nunca resolveu que a Argentina resolveu

Liderança coletiva em campo.

O Brasil tem líderes individuais: Marquinhos é capitão, Raphinha é líder no vestiário do Barcelona, Vini Jr. é o mais habilidoso. Mas em campo, quando o jogo fica difícil, quem assume? Quem faz o time funcionar quando os criativos estão bloqueados?

A Argentina tem Emiliano Martinez no gol, um dos goleiros mais competitivos do mundo, provoca, dialoga, organiza. Tem Cristian Romero e Lisandro Martinez na defesa, dois jogadores que brigam por centímetro como se fosse o último. Tem De Paul correndo por todos nos momentos críticos.

O Brasil tem Raphinha. E alguns candidatos. Mas o coletivo que a Argentina demonstrou em 2022, aquela mentalidade de não se render, de virar quando parece impossível, o Brasil não demonstrou em Copa há muito tempo.

O que Ancelotti pode pegar da Argentina e aplicar

Ancelotti conhece o modelo. Treinou no Real Madrid jogadores que foram fundamentais na Argentina de 2022, Valverde, que conhece a pressão de grande competição, jogadores que passaram pelo Madrid.

O que Ancelotti precisa construir nos próximos meses é o que Scaloni levou dois anos para consolidar: uma cultura coletiva dentro do grupo. Que Estevão saiba qual é o papel dele mesmo que não seja o gol. Que a ausência de Rodrygo não desestabilize a coesão do elenco. Que Marquinhos como capitão seja o líder que o jogo precisa, não só o líder que aparece nas entrevistas.

O que vai ser diferente

A Argentina em 2026 também tem problemas. Messi tem 38 anos. Os laterais seguem sendo o calcanhar de Aquiles do sistema. A defesa do título é sempre mais difícil do que a conquista.

Mas Scaloni já provou que sabe adaptar. Em 2021, 2022 e 2024, cada competição trouxe um conjunto diferente de obstáculos, e a Argentina encontrou respostas diferentes para cada um.

O Brasil de Ancelotti vai precisar da mesma capacidade de adaptação. Cinco Copas seguidas sem semifinal não é acidente. É um padrão. E padrões se quebram com cultura nova, não com talento que já existia.

Scaloni ensinou isso para o mundo do futebol. Ancelotti foi pago para aprender a lição.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo