R$ 195 mi em arbitros profissionais. A primeira rodada ja teve polemica
Globo Esporte / Arquivo
Fora da Caixa 2026-04-06 4 min de leitura

R$ 195 mi em arbitros profissionais. A primeira rodada ja teve polemica

Marina Costa
Jornalista Esportiva

A CBF vai pagar até R$ 30 mil por mês para árbitros do Brasileirão. Vai contratar 72 profissionais com salário fixo, bônus por performance, avaliação contínua. Vai investir R$ 195 milhões nos próximos dois anos. Vai implementar impedimento semiautomático, a mesma tecnologia da Copa do Mundo.

É a maior reforma da arbitragem na história do futebol brasileiro.

E ainda vai haver polêmica. Pode escrever.

Por que o problema não vai sumir com dinheiro

A profissionalização era necessária. Isso não está em debate. Durante décadas, o futebol brasileiro exigiu que árbitros de primeira divisão tivessem outra profissão. Um promotor de justiça apitava Flamengo contra Palmeiras no domingo e voltava para o trabalho na segunda-feira. O absurdo foi normalizado por tanto tempo que parecia natural.

Pagar R$ 30 mil para um árbitro de primeira linha é o mínimo. Em ligas europeias de alto nível, árbitros recebem valores muito maiores. A disparidade era tão grande que a questão não era "se" profissionalizar, era "por que demorou tanto".

Mas a profissionalização resolve o problema errado.

O problema da arbitragem brasileira não é, principalmente, financeiro. É cultural e sistêmico.

O que os dados da primeira rodada já mostram

O Brasileirão 2026 começou com árbitros profissionais. E a primeira polêmica apareceu na primeira rodada. O Fluminense foi à CBF questionar o gol anulado de Serna contra o Coritiba. David Duarte, do Bahia, disse que o árbitro "nos roubou em casa" depois de uma derrota para o Palmeiras.

Primeira rodada. Árbitros profissionais. Mesma polêmica de sempre.

Isso não prova que a profissionalização não vai funcionar. Prova que a janela de adaptação é longa e que as expectativas foram infladas além do razoável. A narrativa vendida foi que árbitros profissionais significariam menos erros imediatamente. A realidade é que árbitros profissionais significam, no longo prazo, uma estrutura mais sólida para desenvolver melhores árbitros. O efeito é de anos, não de meses.

O impedimento semiautomático muda o jogo

Aqui, diferente da questão salarial, a mudança tem impacto imediato e mensurável.

O impedimento semiautomático usa câmeras e inteligência artificial para calcular as posições dos jogadores no momento exato do passe. Elimina a subjetividade humana de marcar uma linha de impedimento. Acaba com os debates sobre "o calcanhar estava adiantado" ou "o joelho estava na linha".

Na Copa do Mundo de 2022, essa tecnologia foi usada com sucesso. Reduziu drasticamente o tempo de revisão de impedimentos pelo VAR, que antes podia levar mais de três minutos. Com o semiautomático, a decisão sai em segundos.

Para o torcedor, isso significa menos tempo esperando. Para o jogador, significa mais certeza. Para o árbitro, significa menos pressão numa das decisões mais difíceis e mais contestadas do futebol.

Essa mudança vai fazer diferença real. E o Brasil devia ter implementado há mais tempo.

O que ainda não foi resolvido

A comunicação pública das decisões do VAR é outra mudança importante. O árbitro vai anunciar ao retornar ao gramado o que foi revisado e por quê. Mais transparência, menos sensação de arbitrariedade.

Mas o que nenhuma mudança resolve: a pressão dos clubes e da imprensa sobre árbitros.

O futebol brasileiro tem uma cultura de externalizar a culpa. Perdeu? Culpa do árbitro. Resultado ruim? A arbitragem persegue o clube. Esse comportamento não desaparece porque o árbitro agora tem carteira assinada.

Para mudar a cultura, é preciso mais do que profissionalização. É preciso consequência para clubes que fazem acusações graves sem evidência. É preciso que a CBF pare de abrir processo cada vez que um time recorre após uma derrota. É preciso que os árbitros errem e sejam cobrados com a mesma seriedade que os jogadores.

O passo certo, com expectativas erradas

A profissionalização da arbitragem é um passo necessário e correto. A reforma vai na direção certa. Os R$ 195 milhões, se bem aplicados, vão criar uma base mais sólida para desenvolver árbitros ao longo de anos.

O problema é a narrativa que acompanha a mudança. A CBF vendeu como revolução o que é, na melhor das hipóteses, uma reforma estrutural com efeitos de médio prazo.

O torcedor que assistiu Fluminense e Coritiba na primeira rodada e viu polêmica de novo vai dizer que "não mudou nada". Vai dizer que o dinheiro foi jogado fora. Vai pedir a cabeça do árbitro.

E o ciclo de desconfiança vai continuar.

A diferença real vai aparecer daqui a três anos, quando um árbitro de 28 anos que foi profissionalizado cedo tiver rodagem suficiente para apitar um Flamengo contra Palmeiras sem tremer. Quando um VAR treinado com tempo e sem outras obrigações profissionais marcar o impedimento correto em 12 segundos.

Isso vai acontecer. Mas não ainda.

E quem vendeu a reforma como solução imediata vai ter dificuldade para explicar por que a primeira rodada já foi assim.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo