Ancelotti não convocou Neymar para a última Data FIFA. O Brasil inteiro parou para comentar. Ex-jogadores saíram em defesa do camisa 10. Colunistas escreveram que a Seleção precisa dele. Torcedores fizeram campanha nas redes. O técnico foi obrigado a explicar publicamente um critério que qualquer comissão técnica do mundo aplicaria sem precisar de coletiva de imprensa.
E aí está o problema. Não a ausência de Neymar. A reação à ausência de Neymar.
A pergunta que ninguém quer responder
Neymar completará 34 anos durante a Copa do Mundo de 2026. Está no Santos após anos fora do futebol de alto nível por lesão. Voltou em janeiro, jogou bem nos primeiros jogos, depois entrou no centro de uma polêmica por fala misógina após a partida contra o Remo. Vojvoda foi demitido do Santos em parte porque o elenco, com Memphis Depay e Neymar, não entregou o esperado. Ancelotti disse claramente: não está 100% fisicamente.
Então por que metade do país age como se não convocar Neymar fosse um erro técnico?
A resposta não está no futebol. Está no que Neymar representa para uma geração que cresceu assistindo a ele. É o único jogador brasileiro que chegou perto de ganhar uma Bola de Ouro nas últimas duas décadas. É a memória viva de um Brasil que jogava bonito e competia de igual para igual com qualquer seleção do mundo. Não convocar Neymar é, para muita gente, admitir que aquele tempo acabou.
Mas essa é uma questão emocional. Não é critério técnico.
O elenco que o Brasil não enxerga
Vinicius Júnior é o melhor jogador do mundo em atividade por qualquer critério objetivo. Rodrygo jogou em Champions League em altíssimo nível até se machucar. Raphinha foi artilheiro do Barcelona na temporada europeia. Endrick, com 18 anos, é titular no Real Madrid. Gabriel Martinelli está entre os melhores pontas da Premier League.
O Brasil de 2026 tem, provavelmente, o ataque coletivo mais forte de sua história em termos de nível de clubes. Não tem um Pelé, não tem um Ronaldo Fenômeno, não tem um Neymar no auge. Tem algo diferente e potencialmente mais sólido: profundidade real em todas as posições ofensivas.
Mas esse debate não acontece porque a conversa é sempre sequestrada pela pergunta sobre Neymar. A cada semana, a imprensa esportiva brasileira gasta mais energia discutindo se um jogador de 34 anos que não está 100% fisicamente merece uma vaga do que analisando como Vinicius e Raphinha funcionam juntos, como Ancelotti vai montar a linha de quatro, ou quais são os gaps reais no elenco.
Ancelotti tem um critério. Isso é raro no futebol brasileiro.
O técnico italiano disse algo simples: preciso de jogadores que estejam 100%. Neymar não está. Quando estiver, pode ser convocado.
Isso não é descaso. É exatamente o que um treinador sério faz. A convocação final para a Copa será anunciada em maio de 2026. Há tempo. A decisão será tomada com base em condição física real, não em pressão da torcida.
O problema é que o futebol brasileiro não está acostumado com isso. Durante anos, o critério de convocação para a Seleção foi uma mistura de prestígio, pressão midiática e lealdade pessoal. Jogadores em má fase eram convocados porque eram nomes grandes. Jovens em ótima fase ficavam de fora porque não tinham o status necessário.
Ancelotti está aplicando um critério diferente. E a reação do país mostra o quanto esse critério ainda é estranho por aqui.
O que acontece se Neymar for convocado e não funcionar
Em 2014, o Brasil construiu uma Copa inteira em torno de Neymar. Quando ele se machucou nas quartas de final, a equipe desmoronou. O 7 a 1 contra a Alemanha não foi só derrota técnica. Foi o colapso de um modelo que havia depositado em um único jogador a responsabilidade que deveria ser coletiva.
Em 2022, Neymar voltou machucado no segundo jogo e nunca chegou ao seu melhor. O Brasil caiu nas quartas de final para a Croácia nos pênaltis, sem uma ideia coletiva clara de jogo.
Em 2026, o Brasil tem a chance de ir à Copa com um elenco sem dependência individual. Com um técnico que ganhou Champions, La Liga e Serie A. Com atacantes que jogam no mais alto nível europeu toda semana.
Desperdiçar esse debate em torno da questão Neymar é escolher a narrativa em vez do futebol.
Neymar merece respeito. Não dívida impagável.
O que Neymar fez pelo futebol brasileiro é inegável. Os títulos pelo Barcelona, a Copa América de 2019, as atuações memoráveis com a Seleção. É um dos melhores jogadores que o Brasil já produziu. Esse reconhecimento não está em discussão.
Mas reconhecer uma carreira não é o mesmo que garantir uma convocação. Uma é histórica. A outra é técnica e presente.
Se Neymar chegar a maio de 2026 em condição física plena, jogando bem no Santos, Ancelotti vai convocá-lo. A questão não existe fora da narrativa que o país construiu ao redor do jogador.
O Brasil não precisa de Neymar para ser campeão em 2026. Pode precisar ou não, dependendo de como o torneio se desenvolver. Mas com certeza não precisa de mais seis semanas de debate sobre se ele vai ou não vai, enquanto os jogadores que estarão em campo independentemente de qualquer coisa seguem sendo subavaliados.
Ancelotti está fazendo a parte dele. A questão é se o Brasil consegue fazer a sua.
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