Ancelotti é o Brasil: o técnico que adapta, não define
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Fora da Caixa 2026-04-07 3 min de leitura

Ancelotti é o Brasil: o técnico que adapta, não define

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Carlo Ancelotti e um dos melhores tecnicos da historia do futebol. Quatro Champions League. Titulos em quatro paises diferentes. Uma carreira que combina resultados com ambiente, seus times raramente se rebelam, seus vestiarios raramente vazam.

O problema: Ancelotti não e um tecnico que define o sistema. E um tecnico que adapta o sistema ao elenco. E no Brasil, essa caracteristica tem custo.

O que Ancelotti faz diferente de outros grandes tecnicos

Pep Guardiola define o sistema e contrata jogadores para o sistema. Se o jogador não se encaixa, não vai para o time, independente da qualidade individual. O sistema e a identidade.

Jurgen Klopp define o sistema (pressao alta, gegenpressing, transicoes rapidas) e convence os jogadores a adota-lo. Ha uma identidade clara que qualquer torcedor do Liverpool sabia descrever.

Ancelotti olha para o elenco disponivel e monta o melhor time possivel com aquele elenco. A identidade e construida pelos jogadores, não pelo tecnico. No Real Madrid isso funciona porque o elenco tem jogadores que ja tem identidade de elite, Vini Jr., Modric, Bellingham sabem jogar futebol de alto nivel de forma organizada sem precisar de sistema rigido.

Por que isso e diferente na seleção brasileira

A seleção brasileira não tem elenco com identidade estabelecida. Tem jogadores individuais de alto nivel, mas que atuam em sistemas diferentes na Europa, com tecnicos diferentes, em contextos taticos diferentes.

Quando Vini Jr., Raphinha e Estevao se encontram na seleção, eles não compartilham um sistema comum. Vini Jr. vem do Real Madrid. Raphinha vem do Barcelona. Estevao vem do Chelsea. Tres sistemas completamente diferentes, tres culturas taticas completamente diferentes.

Num tecnico que define sistema, esses tres jogadores teriam um denominador comum claro. No modelo Ancelotti, onde o sistema se adapta aos jogadores, quem define o denominador comum? A resposta, ate agora, não esta clara.

O que os amistosos de preparacao revelaram

O Brasil de Ancelotti em amistosos mostrou momentos de futebol excelente, sequencias de passes de alta velocidade, movimentacoes de ataque criativas, defesa organizada em determinados momentos. Mostrou tambem momentos de confusao, jogadores sem certeza do posicionamento, transicoes de ataque para defesa lentas, erros que vinham de falta de automatismo.

Esses momentos de confusao não preocupam em amistoso. Preocupam se aparecerem nos primeiros jogos de Copa do Mundo. Porque o adversario que estuda bem o Brasil vai encontrar exatamente nesses momentos as oportunidades que precisa.

O que Ancelotti precisa provar que sabe fazer

Em Copa do Mundo, o tempo de preparacao e curto. O elenco que chega ao torneio vai ter sido junto por poucas semanas. A identidade precisa estar instalada ANTES, não construida durante o torneio.

Scaloni levou dois anos para construir a identidade da Argentina. Ancelotti vai ter menos tempo. O que ele pode fazer e definir mais claramente as regras de funcionamento: quem faz o que, quando pressionar, quando segurar, como se organizar defensivamente.

O Brasil tem o elenco. Ancelotti tem a experiencia. A questao e se a soma vai produzir um time, ou apenas uma colecao de grandes jogadores. Essa diferenca vai ser testada em junho de 2026. O resultado não depende de talento. Depende de identidade.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo