Carlo Ancelotti tem cinco Ligas dos Campeões. Três pelo Real Madrid. Uma pelo Milan. Uma pelo Liverpool. É o técnico mais bem-sucedido na história do torneio mais disputado do mundo. E está indo para a Copa do Mundo de 2026 com 52% de aproveitamento pela seleção brasileira.
Cinquenta e dois por cento. O pior número da história do Brasil em pré-Copa.
A pergunta que ninguém quer fazer
O Brasil contratou o melhor técnico disponível no mercado. Pagou o que precisou. Fez uma pompa enorme com o anúncio. E um ano depois, a questão que paira no ar, mas que poucos têm coragem de colocar em voz alta, é simples: e se Ancelotti for o técnico certo para o Real Madrid e o técnico errado para o Brasil?
Não é uma provocação gratuita. É uma questão técnica séria.
Ancelotti é um gênio da gestão de elenco. Sabe lidar com estrelas, sabe distribuir minutagem, sabe criar ambiente. No Real Madrid, ele tinha Vini Jr., Bellingham, Modric, Kroos, uma estrutura de clube com estágio de 60 anos de sucesso europeu, e diretores que conhecem cada nuance do futebol de alto rendimento.
No Brasil, ele tem uma confederação que não sabe o que escrever na gola da camisa.
Os números não mentem
Em 35 partidas pelo Brasil, Ancelotti acumulou 15 vitórias, 10 empates e 10 derrotas. Para quem está acostumado com aproveitamento acima de 70% no Real Madrid, esses números representam mais do que uma transição. Representam uma adequação que ainda não aconteceu.
O ciclo do Dorival foi ruim. Mas Ancelotti assumiu em maio de 2025 e o aproveitamento desde então não se afastou muito do que o antecessor deixou. A diferença é que agora todo mundo prefere acreditar que é "fase de ajuste" e que "a Copa vai mostrar a qualidade do trabalho".
Pode ser. Mas também pode ser que o problema não seja o treinador. O problema pode ser estrutural. E nesse caso, nenhum técnico resolve.
O que Ancelotti pode e o que ele não pode fazer
Ancelotti pode montar uma equipe organizada. Pode definir hierarquia. Pode dar minutos ao jovem sem estressar o veterano. Pode preparar a equipe defensivamente. Ele sabe fazer isso melhor do que qualquer técnico no mundo.
O que Ancelotti não pode fazer: inventar um camisa 10 que o Brasil não tem. Criar profundidade de elenco onde não existe. Fazer Vini Jr. ser consistente quando o jogador oscila há três temporadas. Garantir que Rodrygo vai repetir no Brasil o que faz pelo Real Madrid. Transformar uma seleção que não tem identidade de jogo consolidada em seis meses de preparação.
E é exatamente isso que o Brasil precisa para ganhar uma Copa do Mundo. Não basta um técnico bom. Precisa de peças que funcionem. Precisa de um sistema que o elenco domine. Precisa de uma identidade.
A seleção brasileira não tem identidade de jogo definida há mais de 20 anos. Scolari ganhou com pragmatismo em 2002. Mas desde 2006, cada ciclo inventa um novo jeito de jogar e nenhum fica tempo suficiente para virar DNA.
O precedente que ninguém menciona
Em 2014, a Alemanha foi para a Copa com Joachim Löw, que já estava há oito anos no cargo. Tinha construído uma identidade. Os jogadores conheciam o sistema com os olhos fechados. Ganharam de 7 a 1 do Brasil e levantaram o troféu.
Em 2022, a Argentina foi com Scaloni, que já tinha quatro anos de trabalho contínuo. Uma Copa América, um título, uma identidade construída. Foram campeões.
O Brasil vai à Copa de 2026 com Ancelotti há menos de 14 meses no cargo, assumido às pressas depois da demissão de Dorival. Não tem ciclo. Não tem continuidade. Não tem identidade.
Tem um nome bonito no currículo e esperança de que seja suficiente.
O risco que ninguém assume
Se o Brasil for eliminado nas quartas de final, o que acontece? Ancelotti vai embora com cinco Champions, uma Copa do Mundo que não aconteceu, e o Brasil vai contratar o próximo grande nome disponível. O ciclo se repete.
A pergunta real não é se Ancelotti é bom ou ruim. A pergunta real é: o Brasil tem estrutura para aproveitar o melhor de Ancelotti? Tem o elenco que o sistema dele precisa? Tem a continuidade que qualquer projeto sério exige?
Até agora, os dados sugerem que não.
O técnico certo no lugar errado ainda perde. E o Brasil não tem, há quatro anos, nem um capitão de verdade dentro de campo.
Cinquenta e dois por cento de aproveitamento. Faltam dois meses.
Bora ter fé.