Abel Ferreira renovou com o Palmeiras até 2027. Sem aumento de salário. Sem multa rescisória. Pela terceira vez consecutiva, o mesmo técnico, no mesmo clube, com o mesmo projeto.
No Brasileirão de 2026, onde já há dez demissões em dez rodadas, Abel representa uma anomalia estatística. E a anomalia está no topo da tabela.
Isso não é coincidência. É a evidência mais clara de que o futebol brasileiro entende a teoria da continuidade e se recusa a praticá-la.
O que Abel fez que ninguém faz
Abel Ferreira chegou ao Palmeiras em outubro de 2020. Em pouco mais de cinco anos, ganhou dois Campeonatos Brasileiros, dois Campeonatos Paulistas, uma Copa do Brasil, duas Libertadores e uma Recopa Sul-Americana. É o treinador mais vitorioso da história recente do clube.
Mas o número mais revelador não é de títulos. É de renovações. Três renovações de contrato com o mesmo clube. Sem exigir aumento expressivo. Sem usar o mercado europeu como pressão. Sem transformar cada entrevista coletiva num espetáculo.
Abel ficou porque quis. E quis porque o Palmeiras construiu um ambiente em que vale a pena ficar.
O modelo que o Palmeiras não inventou, mas o Brasil não copia
O modelo Abel-Palmeiras não é inovação. É o que todo clube europeu bem-gerido faz. Técnico com projeto claro, diretoria que não interfere em decisão técnica, continuidade de trabalho, desenvolvimento de base integrado ao profissional.
O Bayer Leverkusen de Xabi Alonso funcionou assim. O Liverpool de Klopp funcionou assim por quase dez anos. O Manchester City de Guardiola funciona assim há mais de uma década.
No Brasil, o Palmeiras reproduziu o modelo. E os resultados são proporcionais.
O que os outros 19 clubes do Brasileirão fizeram quando viram o modelo? Continuaram demitindo. Continuaram interferirem na escolha de jogadores. Continuaram reagindo a resultado de rodada em vez de avaliar trabalho de ciclo.
A renovação sem multa que diz mais do que o contrato
Abel renovou sem multa rescisória. Esse detalhe passa em branco na maioria das análises, mas é o mais importante de todos.
Uma multa rescisória existe para proteger o clube do técnico que quer sair. Quando não existe multa, o técnico fica porque quer ficar. Não porque está preso. Porque acredita no projeto.
Abel poderia receber proposta do futebol europeu em qualquer momento. Pode receber ainda. E quando receber, vai analisar se o projeto oferecido é melhor do que o que tem no Palmeiras. Não o salário. O projeto.
Esse é o tipo de técnico que os clubes deveriam querer. E é o tipo de técnico que a maioria dos clubes brasileiros afasta com a primeira crise de resultado.
O que o Palmeiras entende que outros clubes não entendem
Leila Pereira, presidente do Palmeiras, disse que garante Abel até 2027. A afirmação parece simples. Na prática, é uma declaração de política de gestão: quando o clube tem projeto, não reage a manchete. Não responde a pressão de torcida organizada. Não faz reunião de emergência depois de derrota no clássico.
Confiança gera continuidade. Continuidade gera identidade. Identidade gera resultado. O Palmeiras provou o ciclo completo em cinco anos.
A questão que fica é: por que os outros não aprenderam?
A resposta honesta é que aprender exige que a diretoria abdique de poder. Exige que o presidente não dê entrevista depois de derrota prometendo mudança. Exige gestão silenciosa, sem teatro, sem aparição no microfone.
No futebol brasileiro, diretoria de clube ainda confunde protagonismo de gestão com qualidade de gestão. O presidente que aparece mais está gerindo bem, na narrativa dominante. O presidente que protege o técnico das câmeras e não faz declaração emotiva depois de eliminação é o que está, na prática, gerindo melhor.
Abel em 2026 e o que vem pela frente
Com contrato até 2027, Abel vai passar pela Copa do Mundo sem perder atletas para uma longa ausência. O Brasileirão pausa em junho para o Mundial. Os jogadores convocados ficam até julho. Abel terá o clube minimamente intacto durante o torneio.
No segundo semestre, o Palmeiras vai disputar título do Brasileirão, Copa do Brasil e Libertadores com um técnico que conhece o elenco melhor do que qualquer adversário. Com um elenco que conhece o sistema melhor do que qualquer outro clube.
Os outros 17 clubes que já trocaram de técnico em 2026 vão enfrentar um time que não precisou trocar nada.
O Brasileirão já sabe como vai terminar.