Quando a seleção brasileira feminina vence com facilidade e o debate e sobre o quanto jogaramos bem. Quando perde, o debate e sobre as dificuldades estruturais que precisamos superar. Nunca sobre onde especificamente falhamos taticamente. Nunca sobre o que o adversario fez melhor. Essa e a diferenca entre cobrir esporte e cobrir uma boa causa.
A seleção feminina merece cobertura esportiva real. Nao elogios condescendentes. Nao desculpas preventivas. Analise. Critica. O mesmo padrao que aplicamos ao masculino.
Arthur Elias e um tecnico competente. Construiu um elenco com jogadoras de alto nivel jogando no exterior. Tem sistema definido, identidade taticamente reconhecivel. Mas tem questoes abertas que ninguem quer fazer: a seleção brasileira esta preparada para enfrentar a Espanha, os Estados Unidos e a Inglaterra em um Mundial? Essa pergunta precisa ser respondida antes de julho de 2027.
O que a Espanha fez que o Brasil ainda não fez
A Espanha ganhou a Copa do Mundo Feminina de 2023 com um modelo que levou anos para construir. Barcelona e Real Madrid investiram no feminino com a mesma seriedade que investem no masculino. Salarios competitivos. Instalacoes adequadas. Calendario organizado para desenvolvimento. O resultado foi uma geracao de jogadoras que joga futebol de alto nivel toda semana em um campeonato exigente.
No Brasil, Palmeiras e Corinthians sao as referencias no feminino. Mas o investimento ainda não e comparavel ao que esses clubes fazem no masculino. A distancia entre o que o Brasil poderia ter e o que tem agora e exatamente a distancia que separa potencial de resultado.
Em 2027, o Brasil vai sediar o Mundial. O elenco nacional vai enfrentar times que preparam suas jogadoras em condicoes que o futebol feminino brasileiro ainda não oferece. Isso não e detalhe. E o campo de batalha onde a Copa vai ser decidida.
Ary Borges e invisivel no Brasil
Ary Borges joga no Angel City FC na NWSL -- uma das melhores ligas femininas do mundo. Faz temporadas de alto nivel. Coleciona titulos de melhor jogadora em multiplas edicoes. No Brasil, parte significativa dos torcedores de futebol não sabe quem ela e.
Isso diz tudo sobre o estado da cobertura do futebol feminino no pais que vai sediar o proximo Mundial. Se o Brasil não conhece sua propria melhor jogadora, como vai construir torcida para o torneio? Como vai criar identificacao com a seleção? Como vai gerar a pressao de publico que faz a diferenca em jogo de Copa?
A Copa 2027 e uma oportunidade historica. Oportunidade de transformar o futebol feminino no Brasil de uma vez. Mas transformacao não acontece em doze meses. Acontece com decisoes tomadas agora -- de investimento, de cobertura, de transmissao, de valorizacao das atletas que ja existem e que ja sao de nivel mundial.
A pergunta que vale R$ 1 bilhao
Quanto o Brasil vai perder se a seleção feminina for eliminada cedo em 2027? Economicamente, em receita de turismo, em patrocinio, em impacto de marca? E quanto seria economizado se o investimento feito hoje garantisse uma seleção competitiva para ir fundo no torneio?
Essa conta não foi feita publicamente. Ou se foi, não foi divulgada. E isso revela prioridade: o futebol feminino ainda e visto como responsabilidade social, não como negocio. E quando e tratado como responsabilidade social, recebe o orcamento de responsabilidade social -- suficiente para existir, insuficiente para competir.
A Copa 2027 esta chegando. O cronograma não espera. E o Brasil precisa decidir agora se quer ser sede de um Mundial de futebol feminino de verdade ou apenas o local onde o mundo jogou enquanto o Brasil assistia. Essa escolha esta sendo feita nos escritorios de clubes, nos contratos de transmissao, nas salas onde orcamentos sao decididos. Torcedor que quer ver o Brasil ir fundo em 2027 precisa cobrar essas decisoes agora. Quando comecar o torneio, vai ser tarde demais.